OS BASTIDORES DA BÍBLIA

INTRODUÇÃO

Eu desejo que essa caminhada que estamos iniciando agora, seja um curso para os seus músculos e não só para a sua mente. O que eu quero dizer com isso? Quando um conhecimento chega, em primeiro lugar, ele é da mente porque ele faz você pensar, refletir, entender cognitivamente o que está sendo dito. Mas não pode parar aí. Todo o conhecimento que só fica na mente para nada serve, não é nem aprendizado. A mágica acontece quando ele passa da mente para o músculo, ou seja, quando ele faz alterações nos seus comportamentos, quando ele mexe no seu corpo, quando ele mexe no seu modo de ser, de agir, de olhar, de se comportar… aí se transforma em aprendizagem. E quando todo o conhecimento se torna aprendizado, vai da mente para o músculo, ou seja, se torna natural, automático no corpo, você começa a agir daquele modo, seus músculos começam a responder aquele novo aprendizado. É isso que eu desejo.

Que Os Bastidores da Bíblia chegue para você como algo que altere a sua musculatura e que faça de você alguém que ande de modo diferente, que enxergue a revelação de Deus de outra maneira e, enxergando de outra maneira, possa se comportar, agir e ser de outra maneira.

Que outra maneira é essa? Ser uma pessoa sem ansiedade, sem angústia, sem medos, uma pessoa de autoconfiança, uma pessoa de determinação, de decisão, porque é isso que a alteração da palavra de Deus verdadeira faz em nós. É isso tudo que eu desejo para você.

Vamos começar?

CAPÍTULO 1 – A INCRÍVEL HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA

A história da interpretação da Bíblia Sagrada é um tema espetacular, mas que acaba levantando uma série de perguntas. São essas perguntas que vamos, juntos, tentar responder neste livro.

Visando facilitar a compreensão deste tema, escolhemos doze passos principais, considerando momentos históricos que tiveram influência tanto na formulação do Texto sagrado quanto na história da Igreja e em seus ensinamentos ao longo do tempo.

Esses doze passos, resumidos no esquema a seguir, serão abordados a partir de agora:

            

PRIMEIRO PASSO – ANO 30

Início da Igreja

Não há como sabermos exatamente em que ano este primeiro passo ocorreu, afinal são informações que variam bastante a depender dos autores e fontes que forem utilizadas.

No entanto, o que precisamos compreender sobre este primeiro passo é que ele tem início com os movimentos de Jesus, que fixamos aqui no ano 30. Apesar de essa data poder variar um pouco para mais ou para menos, sabemos com certeza que foi por este período que Cristo inicia sua jornada.

Logo no princípio de seu ministério, Jesus logo nomeou este movimento como Igreja, mas para Ele, a Igreja não é um prédio, não é o templo, não é um território. Para Jesus, Igreja significa o encontro humano.

Onde houverem pessoas se encontrando para viver o bem, para praticar o amor e para adorar a Deus, ali estará uma Igreja. Este é o surgimento da Igreja Católica, e nosso primeiro passo.

SEGUNDO PASSO – ANO 382

Formação da Bíblia

O segundo passo para saber como se interpretar a Bíblia é ter conhecimento do que aconteceu no ano 382, em que a Bíblia Sagrada foi apresentada oficialmente pelo Papa Damásio I.

Essa primeira versão da Bíblia era composta pelo Antigo Testamento, vindo dos textos originais dos judeus, e pelo Novo Testamento, que foi montado pelos cristãos.

A primeira coisa que precisamos observar é que primeiro vem a Igreja; primeiro vem a prática da vida cristã, a liturgia, a missa, as celebrações e a reunião dos cristãos. Em outras palavras, a vida cristã antecede o Texto sagrado!

A Bíblia não é anterior à Igreja. A Igreja é anterior à Bíblia. Não é a Bíblia que dá forma e organização à Igreja, é o contrário: é a Igreja que dá forma à Bíblia.

Foram mais de 352 anos de existência da Igreja de Cristo, entre o ano 30 e o ano 382, até a apresentação da Bíblia no formato com o qual estamos acostumados, com a organização dos livros, muito tempo depois de a Igreja já existir, com todas as suas ações e práticas.

Esses dois primeiros passos trazem ainda uma importante informação: mesmo antes da formação da Bíblia, nestes 352 anos de existência da Igreja, já havia textos escritos e as comunidades cristãs, nas cidades, aldeias e vilas, se comunicavam e liam os textos que estavam disponíveis.

Houve a circulação de textos na Igreja e na comunidade Cristã mesmo antes da compilação da Bíblia Sagrada, desde textos dos próprios apóstolos como os textos do Antigo Testamento.

O que não existia, até então, era uma Bíblia que reunia esses textos.

O motivo principal que levou a Igreja a definir uma lista de livros sagrados, era de indicar às comunidades os livros que eram seguros para serem lidos, isso porque haviam muitas obras heréticas, com doutrinas falsas, e que se diziam de autoria apostólica, circulando entre os cristãos.

São os chamados textos apócrifos, e mesmo que alguns deles carregassem o nome dos apóstolos, como o Evangelho de Pedro, o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Maria Magdalena, o Evangelho de Tiago, os Atos de Pilatos ou o Apocalipse de Pedro, estes escritos sequer condiziam com o Evangelho de Cristo.

A intenção da Igreja ao apresentar a Bíblia não era de fornecer uma verdade absoluta, e também não era para o Texto sagrado representar o único livro que as pessoas deveriam ler.

A Igreja estava apresentando aos cristãos uma seleção de textos que representavam melhor o Evangelho de Cristo e as boas práticas da própria Igreja, da comunidade, pois como vimos, a Igreja não é templo, são pessoas que adoram a Deus.

TERCEIRO PASSO – ANO 1517

Reforma Protestante

Essa data é marcada pelo início do que chamamos de Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero, um Padre Agostiniano que ficou famoso por romper com a Igreja Católica e, de certa maneira, começou todo este movimento que se tem hoje em dia, com tantas Igrejas surgindo em tantos lugares.

O que talvez você não saiba é que Martinho Lutero não queria, no princípio, destruir ou se separar da Igreja Católica, criando a própria Igreja. Ele se revoltou com a venda de indulgências e abusos que viu dentro da Igreja Católica, da qual ele mesmo fazia parte.

A questão é que Lutero tinha razão em seu protesto. Por motivos econômicos, o Papa da época, precisando de dinheiro para construir a famosa Basílica de São Pedro, no Vaticano, começou a vender indulgências, fosse uma bênção ou uma oração, em troca de ofertas financeiras.

O maior problema disso é que se formou uma estrutura em torno dessas indulgências, de maneira que se tornou um verdadeiro comércio, inclusive com vendedores que negociavam com os interessados em comprar as indulgências e que iam pelas cidades e pelas casas, não para espalhar o Evangelho, mas para vender.

Isso era quase como se a Igreja estivesse querendo vender bênçãos, que estivesse vendendo o céu.

Ao menos era o que tudo isso parecia para Lutero que, em revolta, formulou e publicou na porta da Igreja de Mainz, na Alemanha, as famosas 95 teses, juntando a venda de indulgências à outras reclamações que tinha contra a Igreja.

Mas então, e essa é minha opinião sobre o fato, Lutero não quis com esse primeiro ato se separar da Igreja, mas somente reformá-la, tanto que não criou outra Igreja logo em seguida, ao contrário, se abriu para a conversa.

Sua intenção era apontar os erros que ele havia identificado e, a partir da discussão, poder modificar e corrigir os rumos da Igreja.

Mas aí entra um detalhe: os príncipes alemães, os governos alemães, que já há algum tempo queriam reduzir o poder que o Vaticano exercia sobre eles, ou até mesmo se separar do Vaticano, pois o Papa exercia muita autoridade sobre os governos, passaram a apoiar Lutero.

A instituição da Igreja Católica daquele período possuía grande poder, sendo o Papa que abençoava ou não um novo Rei ou Imperador, podendo assim interferir politicamente nos Reinos, havendo ainda impostos papais cobrados diretamente dos governos das cidades, o que trazia uma grande dependência política e econômica do Vaticano.

A instituição Igreja, exercia ainda o poder vindo da fé, posto que o povo via no Papa o líder de sua Religião. Por conta disso, qualquer ruptura com o Vaticano poderia causar enormes revoltas populares.

Foi neste contexto, levantando questões econômicas e políticas, que os governantes alemães se aproveitaram dos questionamentos trazidos pelas Teses e Protesto de Lutero, utilizando-se disso para reduzir o poder do Papa em seus territórios. Assim apadrinharam Lutero e o incentivaram a criar a Igreja Alemã, a Igreja Luterana.

Óbvio que, naquela época, Lutero poderia ter ido para a fogueira da Inquisição por ter feito o que fez, mas o fato é que o apoio a Lutero, dado por parte da nobreza alemã, tornou a Reforma Protestante em um processo político e não religioso.

Mas ainda tinha a questão de como explicar, teologicamente, a ruptura com a Igreja Católica e com a liderança do Papa para o povo comum.

Lutero então trouxe o argumento que iria definir os Protestantes da época e todas as outras correntes protestantes surgidas depois dele, e até mesmo para muitos Católicos: sola scriptura, somente a escritura. Isso significa dizer que se deveria fazer uma leitura estrita da Bíblia, seguindo-se apenas o que ali estava escrito.

Se os cristãos não mais seguiriam o Papa, deveriam seguir a Bíblia, estabelecendo que, se algo não está na Bíblia, então não deve ser considerado.

Ou seja, se antes o fundamento da fé era dado pelo Papa, agora este fundamento passaria a ser dado pela Bíblia

É aí que tudo muda, porque não é mais como Jesus havia dito: “tú és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”, passando a ser “tú és Bíblia, e sobre a Bíblia edificarei a minha Igreja”.

Para esses cristãos, inclusive alguns Católicos, não interessa saber os pronunciamentos do Papa, porque o que passa a ter importância é se algo está ou não na Bíblia, mesmo que os fundamentos da Igreja, dados pelo Papa, tenham valido pelos últimos 1.500 anos antes da Reforma de Lutero.

Esse argumento foi muito forte, e ainda ressoa até hoje, mas que, na verdade, não passa de uma fraude. Isso porque a Bíblia precisa de uma interpretação. Ela não é um livro que traz uma doutrina expressa, e qualquer um que já leu a Bíblia saberá que ela quase nunca é clara, justamente por ser a coleção de vários textos antigos, de várias histórias, de várias experiências, de várias ideias.

Após a substituição do intérprete da Bíblia, deixando de ser o Papa para ser a própria Bíblia, surge um grande problema. Por não serem claros, os textos bíblicos ainda precisam de interpretação, só que agora, de forma prática, quem realiza essa interpretação será cada pessoa, cada religioso, cada Igreja e cada pastor, cada um realizando uma leitura diferente dos textos e dizendo ser, essa interpretação, por intermédio da Revelação do Espírito Santo.

É isso que vemos: diversas Igrejas, todas dizendo que seguem a Bíblia, mas cada uma delas pregando coisas diferentes.

Então o que Lutero fez foi uma coisa impossível de dar certo. Não dá certo. O protestantismo não deu certo, porque ao tirar o Papa como intérprete da Bíblia, na prática, o que ele fez foi possibilitar com que cada pastor pudesse se tornar uma espécie de Papa da própria Igreja.

Não há leitura da Bíblia sem interpretação, e nunca será a Bíblia quem dará a resposta final, ela não foi feita para isso. Essa resposta final será sempre dada por aquele que interpreta a Bíblia. Então sempre teremos uma situação igual à que temos hoje, com várias respostas finais, cada uma dada por um grupo diferente de pessoas.

QUARTO PASSO – ANO 1545 A 1563

Concílio de Trento

A Reforma de Lutero criou uma série de problemas para a Igreja Católica. Além de ter perdido muitas Igrejas e fiéis na Alemanha, foi justamente o sucesso inicial do Protestantismo que fez surgir em outros países movimentos similares, espelhando a ideia de separação com o Vaticano.

Era possível ver pequenos movimentos que poderiam visar a destituição da Igreja Católica de seu poder em toda a Europa, e este foi o motivo que levou a Igreja a fazer o Concílio de Trento, e ao longo de quase 20 anos toda a doutrina Católica foi debatida.

Dentre as várias definições trazidas pelo Concílio de Trento, destacamos uma parte de um credo, uma profissão de fé:

Admito também a Sagrada Escritura naquele sentido em que é interpretada pela Santa Madre Igreja, a quem pertence julgar sobre o verdadeiro sentido e interpretação das Sagradas Escrituras. E jamais aceitarei e interpretarei senão conforme o consenso unânime dos padres.

O Concílio de Trento afirmava, mesmo diante da revolta dos protestantes, que quem dá a palavra final sobre a Bíblia é a Igreja — a Igreja Católica, obviamente. Não adianta então ter a Bíblia na mão, pois a Bíblia por si, sem a correta interpretação dada aos textos, de nada adianta.

A Bíblia veio depois da Igreja, e por isso não pode ser o fundamento da fé, não pode ser aquilo que dá solidez à fé. Este fundamento é dado pela própria Igreja em si, que interpreta os textos da Bíblia dando-lhes sentido e significado.

O que importa para o Católico, portanto, não é unicamente se está ou não na Bíblia, mas se está ou não no ensino dos Papas, na tradição da Igreja.

QUINTO PASSO – ANO 1601 A 1700

Explosão Protestante

Na história, é comum que coisas que começam bem pequenas, e as vezes até mesmo parecendo sem importância, depois acabem explodindo e se tornam gigantes, tão fortes que até parecem sempre terem sido dessa maneira. Foi o que aconteceu com o movimento iniciado por Lutero, e em 1.600 começaram a surgir Igrejas Protestantes em praticamente todos os países da Europa.

É claro que, evidentemente, os motivos para essa explosão envolvem mais questões econômicas e políticas desses países do que uma questão religiosa de fato, posto que não queriam mais se submeter à autoridade Papal, enquanto poder, e nem mesmo queriam ter de pagar ao Vaticano os impostos, taxas e tributos.

O que deu origem a essa explosão, sem dúvidas, foi a tradução da Bíblia para o alemão e sua posterior impressão, feitas por Lutero, possibilitando que pessoas comuns pudessem ter acesso ao Texto sagrado. Aquilo foi sensacional, eu queria ter vivido isso.

Essa foi a chave para a explosão protestante porque, se a Bíblia havia substituído o Papa, ao dar para as pessoas essa Bíblia, numa língua que era compreendida e podendo fazer o livre exame, se criava uma relação de proximidade muito grande.

Porém, na medida em que os pastores das inúmeras Igrejas Protestantes realizavam a leitura da Bíblia, seguindo a própria interpretação que queriam ou conseguiam fazer, começaram a perceber que muita coisa que realizavam ou acreditavam no exercício da fé não estava escrito na Bíblia, e isso deu um nó na cabeça deles.

Criam na trindade, mas a trindade não está na Bíblia, o que se tem é um texto falando do Pai, um texto falando do Filho e outro texto falando do Espírito Santo, não havendo textos que, numa única doutrina, juntam as três pessoas.

Mesmo a afirmação de que tudo precisa estar literalmente na Bíblia, assim como afirmava Lutero e ainda afirmam, nos dias atuais, tanto católicos quanto protestantes, não está na Bíblia. Em parte nenhuma a Bíblia é citada na própria Bíblia1.

Isso criou um problema para estes pastores, porque se só podiam crer e fazer aquilo que estava na Bíblia, e começaram a perceber que várias coisas que pregavam como doutrina não estavam lá, então não sabiam o que fazer.

É essa confusão e incerteza que nos remete ao sexto passo:

SEXTO PASSO – 30 DE MARÇO DE 1787

Método Histórico Crítico

Estamos agora no dia 30 de março de 1787, e o que acontece aqui é o surgimento do chamado Método Histórico Crítico utilizado para se ler e interpretar os textos bíblicos.

O método surge com o teólogo protestante Johann Philipp Gabler que, notando que o texto bíblico era diferente da doutrina aplicada pelas Igrejas, propôs fazer a separação entre a Teologia Bíblica e Teologia Sistemática, que é a Doutrina.

De forma geral, a proposta era ler a Bíblia, mas sem buscar nela as doutrinas. Neste sentido, o texto bíblico deveria ser contextualizado com a época e cultura daqueles que escreveram o texto, passando a considerar os textos bíblicos mais como textos de orientações gerais e simbólicas do que como um livro de doutrinas.

A Bíblia não é o fundamento da fé. A Bíblia é um livro antigo, com experiências antigas, e por isso é necessário levar em consideração fatores como a época, a língua, os costumes, o modo de viver, o modo de falar, o que eles estavam fazendo, o que eles estavam falando. Isso é Teologia Bíblica.

Em outras palavras, Gabler estava ensinando aos protestantes o que a Igreja Católica já fazia desde o início, porque a Igreja Católica sempre lidou com a Bíblia assim: aqui está a Bíblia e o Papa define a doutrina da Igreja.

A Bíblia é um livro histórico de experiências com Deus, experiências que as pessoas tiveram de fé, de espiritualidade. Um livro que narra fatos que aconteceram, ou fatos simbólicos, mas fatos que são experiências de fé. Obviamente que a proposta de Gabler não seria aceita pelos protestantes, que continuariam a repetir, sem parar: só vale o que está na Bíblia.

SÉTIMO PASSO – 1801 A 1900

Arqueologia Bíblica

No século 19 começa a acontecer aquilo que se chama de arqueologia bíblica, que é basicamente o processo arqueológico realizado nas regiões onde teriam acontecido os fatos narrados pela Bíblia, em busca de encontrar nesses lugares de escavação, evidências históricas que pudessem confirmar que aquelas histórias aconteceram — e principalmente, que acontecerem da forma como está narrado.

No entanto, e é aí que vem mais uma surpresa, a arqueologia bíblica, ao contrário de comprovar a maior parte das histórias da Bíblia, fez justamente o contrário, comprovando que a maioria delas não aconteceu de fato.

Um exemplo disso é o caso da fuga dos judeus do Egito. Os trabalhos arqueológicos descobriram que, com certeza, não houve a movimentação daquela grande multidão cruzando o deserto de uma vez só, e muito menos que teriam vivido por 40 anos vagando pelo deserto.

Existem estimativas que falam em 600 mil pessoas no deserto, e até outras que falam em maior número, só que essa quantidade de gente, vivendo por tanto tempo em uma determinada localidade, certamente teria deixado marcas facilmente detectáveis pelo processo arqueológico, e nada disso foi encontrado.

Da mesma maneira, também não foram encontradas provas sobre a existência do primeiro Templo de Salomão. O que se tem, aí sim, são evidências do segundo Templo, o de Zorobabel2.

A partir dessas descobertas arqueológicas, aumenta a compreensão de que a Bíblia, em seus textos, deveria ser mais considerada pela simbologia daquilo que narrava do que como um livro doutrinário ou realista.

OITAVO PASSO – 1869 A 1870

Concílio Vaticano I

Então temos, durante o século 19, toda a questão Protestante, que retirava do Papa a qualidade de intérprete da Bíblia, ou, em outras palavras, substituía o Papa pela Bíblia — o que fez, na prática, surgir um Papa para cada denominação religiosa, porque cada pastor podia interpretar a Bíblia conforme o próprio entendimento.

Tinha-se ainda o método histórico crítico, de Gable, afirmando que a Bíblia precisava ser lida, entendendo os costumes, a época e os conceitos em que foi escrita; e também se tinha a arqueologia bíblica, que estava demonstrando que os fatos bíblicos não eram exatamente como haviam sido relatados no texto Bíblico, e que este texto não podia ser lido como um documento histórico, mas sim como um documento simbólico.

Então, no Concilio Vaticano I é definido o dogma da infalibilidade do Papa, segundo o qual o Papa, na qualidade de mestre da Igreja inteira, quando define algo ex cathedra, ou seja, sentado no Trono de Pedro, sobre questões de fé e moral, são infalíveis e irreformáveis, e não precisam da aprovação da Igreja.

Ou seja, a palavra final sobre a interpretação da fé e sobre o exercício do Cristianismo é do Papa. Assim, para os Católicos, não existe a possibilidade de não concordar com o que o Papa disse, porque não se questiona a decisão papal, sobre nenhum tema.

O Papa é considerado, pela sua posição, como o inspirado de Deus em nossos dias, e é por isso que cabe a ele dar os rumos da Igreja. É ele que faz as definições, quem aprova e quem desaprova, que cria a doutrina.

Neste sentido é que, para a Igreja Católica, descobrir que as doze tribos de Israel não existiram, assim como qualquer outra história narrada na Bíblia, não traz problema algum, porque a fé reside na doutrina, no viver segundo os ensinamentos de Jesus, interpretados pelo Papa.

O que faz diferença para a Igreja Católica é a autoridade do Papa. É ele quem define a fé da Igreja. Então, você pode ler os textos atribuídos a Moisés, mas não deixe de considerá-los como de fato são: simbólicos, de orientação, e não de aplicação plena, pois a aplicação, a doutrina, quem define é a Igreja, na pessoa do Papa.

Isso torna a arqueóloga Bíblica, quando menos, uma parceira para compreender a historicidade dos fatos simbólicos narrados na Bíblia, o que não ocorre para os Protestantes, que tem na Bíblia este conceito de infalibilidade, onde tudo precisa estar lá, no texto escrito da Bíblia.

O principal problema é que, quando algo não está na Bíblia, surge o cataclisma, pois a própria estrutura dessa fé é abalada.

NONO PASSO – 1910

Os Fundamentos

Em 1910 começa nos Estados Unidos um movimento chamado “Os Fundamentos”. Esse movimento, basicamente, reafirma o uso da Bíblia de forma estrita e mais: agora, de forma restrita. Por isso, o fundamentalista rejeita toda e qualquer coisa que questione o texto da Bíblia.

No fundamentalismo, o texto da Bíblia deve ser seguido e lido como sendo a verdade absoluta. Não possui simbolismos ou mesmo construções históricas correlatas às pessoas que narraram aqueles fatos, e tudo o que lá está escrito é tido como verdade em seus mínimos detalhes, ainda que faltem estes detalhes.

Esse é o pessoal que abre a Bíblia em Gênesis, lê que Deus criou o mundo em seis dias e afirma que assim foi. Não entendem metáforas ou simbolismos. Deus criou o mundo em seis dias porque está na Bíblia e pronto.

É esse o pessoal que crê na Terra plana, por exemplo. A Terra não é esférica, ela é plana porque a Bíblia diz que a Terra é plana.

Nessa formulação, afasta-se qualquer coisa relacionada à ciência, e a Bíblia se torna um manual que deve ser suficiente para explicar tudo, desde acontecimentos banais até os grandes mistérios da natureza, como se tivesse vindo diretamente das mãos e dos dedos de Deus em pessoa.

Mas, como vimos, a Bíblia é a reunião e escolha de textos antigos, realizado pela Igreja Católica da época dos Romanos.

Para esses fundamentalistas, se a Bíblia manda apedrejar, assim será. Se a Bíblia diz que foi feito o mundo em seis dias, assim foi, acabou. Se a Bíblia manda guardar o sábado, vamos guardar o sábado. É daí que os adventistas começaram a guardar o sábado. Isso é o fundamentalismo. Tem que ser o que está escrito, é o fundamento.

Esse fundamentalismo, com seu afastamento sobre a contextualização histórica e o simbolismo dos textos Bíblicos, possibilita que as denominações fundamentalistas se tornem Igrejas quase apocalípticas, porque se tudo que está na Bíblia é o correto e narra fatos históricos em seus detalhes, seguindo ainda uma linha cronológica, se entende que o livro do Apocalipse narra eventos que ainda não aconteceram, porque fala de coisas que ainda não foram vistas, ignorando-se por completo que tudo o que está narrado em Apocalipse já aconteceu, era um relato simbólico para exemplificar e explicar a perseguição que os cristãos sofriam dentro do Império Romano.

DÉCIMO PASSO – 1962 A 1965

Concílio Vaticano II

O Concílio Vaticano II tratou sobre a Bíblia, produzindo um documento chamado de Dei Verbum, entendendo que os conceitos, a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura, devem ser considerados como um só depósito que constitui, em conjunto, a Palavra de Deus, confiado à Igreja.

Dessa maneira, o modo de viver a fé Cristã é compreendido através da junção da tradição, a maneira pela qual a comunidade vem vivendo ao longo do tempo e pela leitura das escrituras.

Neste sentido, para o Católico, a Bíblia é a Palavra de Deus, mas a tradição também é. O modo como a Igreja viveu e desenvolveu, o que aprendeu, o que os Papas foram ensinando, o que a Igreja foi ensinando, tudo isso, que é a tradição da Igreja, mais a Bíblia, são a Palavra de Deus.

Quando se questiona a um Protestante sobre as escrituras e as tradições, ele afirma que segue somente àquilo que as escrituras dizem, não obedecendo a tradições. Mas a verdade é que os Protestantes só dizem não obedecer às tradições justamente para continuarem a usar a Bíblia como fundamento da fé. É daí que os pastores se utilizam da leitura e da interpretação livre da Bíblia.

Se todos seguem as escrituras sagradas, por que os adventistas guardam o sábado enquanto os Batistas guardam os Domingos? Por que os Testemunhas de Jeová não creem que Jesus é Deus, enquanto que os fiéis da Universal creem que Jesus é Deus?

Todos eles não afirmam usar a Bíblia de forma direta, pela aceitação restrita da palavra? Então como pode haver, para a mesma palavra, tantas interpretações tão diferentes para estabelecer o uso e os dogmas?

O que estão fazendo senão seguindo as Tradições de suas Igrejas? Eles creem sim na tradição, mas creem na Tradição da Igreja deles.

A única coisa que não fazem, diferentemente dos Católicos, é assumir que seguem suas próprias tradições, porque assumir isso seria o mesmo que admitir que a Bíblia não é inteiramente um documento crível e aplicável — que é justamente o pilar central da Igreja deles.

Então, todos eles afirmam que fazem isso ou aquilo, mesmo que sigam orientações completamente diferentes umas da outras, dizendo que o fazem porque está na Bíblia. Todas essas Igrejas afirmam a mesma coisa, mas, ou estão usando uma Bíblia diferente, ou então há algum problema de interpretação, pois a mesma afirmação não pode ser usada para explicar comportamentos diferentes.

O Católico é único que afirma crer na escritura, mas também que segue a Tradição da Igreja, isso porque, na nossa fé, o fundamento não reside na Bíblia, mas sim no Papa.

Agora, se seguem também a Tradição, não através do Papa, mas através dos Pastores, estão na verdade fazendo mais ou menos igual a nós, Católicos, só que, na medida em que admitirem isso, terão que aceitar que a tradição mais antiga é justamente a Católica.

DÉCIMO PRIMEIRO PASSO – OUTUBRO DE 1992

Catecismo da Igreja Católica

Em 11 de outubro de 1992, o Papa João Paulo II aprovou o Catecismo da Igreja Católica, que diz, dos parágrafos 115 ao 119, que segundo uma antiga tradição, podemos distinguir dois sentidos da escritura, o sentido literal e o sentido espiritual.

O catecismo da Igreja Católica está ensinando que a Bíblia precisa ser lida tendo em mente a pessoa que a escreveu e o tempo em que essa pessoa estava escrevendo, e não a analisar segundo a realidade da pessoa que está lendo aquela passagem, porque se o filtro estiver no leitor, este filtro sempre estará em modificação, porque as situações da vida mudam, surgem novas tecnologias e novos conhecimentos que impactam no cotidiano — muito similar àquilo que Gabler, um protestante, já dizia em 1787.

As primeiras perguntas que devemos fazer quando lemos uma história da Bíblia é: qual era a situação que essa pessoa que escreveu estava vivenciando? E depois: o que essa pessoa, ou esse conjunto de pessoas, queriam resolver com isso?

Essas perguntas são fundamentais para ler a Bíblia, porque colocam o leitor numa realidade mais ou menos aproximada daquele que narrou aqueles fatos.

A Bíblia precisa ser estudada de forma histórica, levando sempre em consideração o tempo e a realidade das pessoas que viviam durante a produção daqueles textos. O catecismo chama isso de sentido literal.

O sentido literal questiona: por que aquele texto foi escrito? Quando? Por quem? Em que situação? O que estava sendo discutido?

Através dessas perguntas se chega ao sentido literal, que é entender o que o autor do texto queria dizer naquele tempo para aquelas pessoas com quem ele queria se comunicar.

Já o sentido espiritual é o que aquele texto serve para nós, do momento presente e para os quais aquele texto não foi originalmente pensado e escrito, mas é utilizado para nos servir de orientação sobre problemas e questões que já podem ter sido discutidas, ou na totalidade ou em parte, e a partir daí produzir ensinamentos úteis para a nossa própria realidade, que é a Doutrina.

Se, nas Igrejas Protestantes, é o Pastor quem cria a Doutrina, no Catolicismo é o Papa quem o faz, mediante a tradição, a escritura e a compreensão histórica dessas duas.

O sentido espiritual é o modo como a Igreja Católica interpreta o texto. Uma coisa é a leitura da Bíblia como ela é, como ela foi escrita, seu sentido literal. Outra coisa é o sentido espiritual, a doutrina, a espiritualidade que você tira dali.

DÉCIMO SEGUNDO PASSO – 15 DE ABRIL DE 1993

A interpretação da Bíblia na Igreja

Em 15 de abril de 1993, a Igreja lançou um documento chamado A Interpretação da Bíblia na Igreja, em que considera como indispensável para o estudo científico dos textos antigos o Método Histórico Crítico, que é o método do Gabler.

Um trecho desse documento traz:

O Método Histórico Crítico é o método indispensável para o estudo científico do sentido dos textos antigos.

Qual método a Igreja Católica tem como indispensável? O método do Gabler, que era um protestante e que não foi aceito pela Igreja Protestante. Esse método, hoje, é o método que a Igreja Católica usa oficialmente.

É a partir deste método que se deve realizar os estudos Bíblicos, pois se não for assim, o que estamos fazendo é apenas ler a Bíblia, e não estudando a Bíblia.

Para ler a Bíblia na Igreja Católica é fundamental o entendimento do contexto da época de redação dos textos, a cultura, os costumes, conhecer a política e a religião daquele período. Somente assim estaremos entendendo o texto bíblico sem o perigo de fraudar a mensagem dos autores.

CAPÍTULO 2 – EU TE APRESENTO A BÍBLIA SAGRADA

Agora entramos de fato na análise da Bíblia em si, em sua estrutura e organização. Vamos olhar a Bíblia como um todo e entender os seus livros, suas divisões, e como a Bíblia está montada.

A primeira coisa que precisamos entender é: o que a é Bíblia?

Não estamos falando da Bíblia em seu sentido espiritual, mas sim daquilo que ela é enquanto objeto, enquanto coisa.

No português, temos o conceito da palavra livro, no singular, livros no plural, e biblioteca usada para nos referirmos a um conjunto de livros. Essa palavra, bem como o conceito, veio do antigo Grego, em que temos o termo Bíblos para falar sobre Livro no singular.

Se, em Grego, quisermos falar de livros, no plural, dizemos Biblói, e temos ainda o diminutivo que, em português, seria livrinho, e que em Grego tem-se Biblión, no singular, e Bibliá para o plural.

Então Bibliá é o mesmo que Livrinhos em Português.

Assim, a Bíblia não se trata de um livro, e sim de uma junção de pequenos livros, ou de livrinhos reunidos numa mesma encadernação. É uma coleção de livrinhos, quase como uma biblioteca, só que uma coleção de livros que você consegue carregar por aí.

Podemos observar na Bíblia uma organização prática, da mesma maneira que estes livrinhos estivessem organizados em uma estante na nossa casa.

No total, a Bíblia Católica tem 73 livrinhos que, numa primeira divisão, encontramos o Antigo Testamento, que é tudo aquilo que aconteceu antes de Jesus, e a outra parte que chamamos de Novo Testamento, formado pelas histórias narradas depois de Jesus.

Então a Bíblia, assim como a contagem do tempo, está dividida em antes e depois de Jesus.

O Antigo Testamento é um pouco maior, tendo 46 livrinhos, enquanto que o Novo Testamento tem 27 livrinhos, que contam a história de Jesus e depois de Jesus. Essa é a nossa estante de livros!

ANTIGO TESTAMENTO

A maneira de se ler a Bíblia tem início com a leitura dos seus cinco primeiros livrinhos, o que é chamado de Pentateuco, onde Penta vem do Grego, e quer dizer cinco, e teuco que, também do Grego, quer dizer rolos.

Isso se dá porque, na época da escrita da Pentateuco, os livros eram escritos em rolos, fossem de papiro ou de couro. Então a tradução mais correta para nós, de agora, seria livro, ou seja, Pentateuco significa cinco livros, ou cinco livrinhos.

Estes cinco primeiros livros da Bíblia são: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, e eles inauguram a Bíblia por conta de sua temática, do assunto que abordam, se iniciando com o surgimento dos primeiros homens, trazendo também a história de Cain e Abel, de Noé, da Torre de Babel, de Abraão, e dos Patriarcas, no livro de Gênesis.

Já o livro de Êxodo vai falar de Moisés, da escravidão no Egito, da fuga do Egito, a travessia do Mar Vermelho e de todas as leis que foram sendo apresentadas a partir daí até chegar em Levítico, Números e Deuteronômio, que são as leis de Moisés.

Estes primeiros livros são normalmente atribuídos à Moisés, isso devido a todas as leis que eles contêm.

Depois do Pentateuco, temos os 16 livros chamados de históricos, porque eles contam a história do povo de Israel. É a história da formação do povo, da criação do país, da nação, as guerras que eles enfrentaram, as disputas que eles tiveram, e os reis que neste tempo teriam reinado.

A quantidade de livros na parte histórica diverge um pouco entre a Bíblia Católica e a Bíblia Protestante, pois na Bíblia Protestante faltam quatro livros: Tobias, Judite, I Macabeus e II Macabeus.

Ainda no Antigo Testamento, chegamos aos sete livros chamados sapienciais, que trazem um conteúdo mais poético, com mensagens mais profundas. São os livros de sabedoria e que acabam servindo de origem para uma série de ditados populares.

Na Bíblia Católica, são sete os livros sapienciais: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico. Já na Bíblia Protestante, também os livros sapienciais são reduzidos para cinco, faltando Sabedoria e Eclesiástico.

Ainda temos os 18 livros proféticos no Antigo Testamento, que são aqueles dedicados aos profetas que falaram em nome Deus.

É claro que estes profetas, ainda que tocados pelo Espírito Santo e falando em nome de Deus, não estavam necessariamente adivinhando o futuro, mas sim que traziam uma mensagem sobre Deus, uma mensagem de justiça, uma mensagem de misericórdia, uma mensagem de mudança de vida, uma mensagem de denúncia, uma mensagem contra a exploração, ou mesmo uma mensagem de luta por algum motivo do tempo deles.

Lembre-se: todos, inclusive os profetas, visavam falar com as pessoas do tempo deles mesmos, não tencionavam falar para pessoas que viriam mais de dois mil anos depois, quase três mil anos depois.

Os 18 livros proféticos são: Profetas maiores, Isaías, Jeremias, Lamentações, Baruc, Ezequiel, Daniel; Profetas Menores, Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.

Na Bíblia Protestante são 17 livros, faltando o livro do profeta Baruc.

A diferenciação, entre os profetas, de profetas maiores e profetas menores, não se dá em virtude da qualidade das profecias ou da importância que cada um possui, mas sim pelo tamanho dos livros que deixaram, tendo os profetas maiores deixado livros maiores e os profetas menores deixado livros menores.

NOVO TESTAMENTO

Existem quatro livro que abrem esta segunda parte da Bíblia, que chamamos de Evangelhos, sendo eles: Mateus, Marcos, Lucas e João.

Às vezes ouvimos as pessoas dizendo que é difícil ler e estudar a Bíblia por ser muito grande, e isso é verdade. Considerando todos os livros, das duas partes, a Bíblia é um livro bem extenso, mas o que você realmente precisa saber é que tudo, absolutamente tudo, todos os conhecimentos, aconselhamentos, metáforas e palavras de acolhimento trazidos por este livro podem ser encontrados apenas no Novo Testamento.

Tudo que você precisa conhecer da Bíblia será encontrado nestes quatro livros do Novo Testamento, justamente porque são os livros do Evangelho, ou seja, da boa nova, da boa notícia, da nova aliança com Deus.

A palavra Evangelho vem do Grego (Ευαγγέλιο – Evangélio) e significa a Boa Nova, ou Boa Notícia. Simboliza que Deus tem uma notícia importante para te comunicar, este é o significado dos evangelhos, e por isso é a parte mais importante da Bíblia.

É a afirmação que encontramos no Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 125:

Os evangelhos são o coração de todas as Escrituras, enquanto são o principal testemunho da vida e da doutrina do Verbo encarnado, nosso Salvador.

Depois dos quatro Evangelhos, temos o livro de Atos dos Apóstolos, que basicamente vai nos contar sobre o início da Igreja, como ela surgiu através das histórias dos mártires e dos apóstolos, tendo a igreja sido erguida nos ombros e nas ações destes primeiros evangelistas, daqueles que levavam a Boa Nova de Jesus, depois que ele se reuniu ao Pai, por todo o mundo conhecido.

Enquanto os Apóstolos, que conviveram com Jesus em vida, levavam a Boa Nova, foram duramente perseguidos, e é aí que surge, no capítulo 8, um personagem chamado Saulo3, que era quem perseguia aos cristãos.

Saulo era Judeu de origem e fé, não admitia o Cristianismo, ou seja, não reconhecia que Jesus era o Messias, e por isso perseguia os cristãos — o que fazia com muita determinação. Se há uma coisa que precisamos saber sobre Saulo é que ele era uma pessoa extremamente determinada.

Só que esse Saulo, depois de um encontro com Cristo, vai se converter ao Evangelho e daí, sendo a pessoa determinada que era, se torna o maior pregador do Evangelho de todos os tempos, e passa a adotar a versão Latina de seu nome: Paulo.

Após iniciar suas viagens, Paulo se torna o maior evangelizador e sua história passa a dominar o livro de Atos dos Apóstolos. E temos ainda as famosas 14 cartas de Paulo, que são cartas que ele escreveu para orientar as comunidades Cristãs, daí o nome dessas Cartas: Romanos, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 Tessalonicenses, 2 Tessalonicenses, 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito, Filemon e Hebreus.

Dessas cartas, a última, de Hebreus, temos hoje certeza que não foi de autoria de Paulo, principalmente pelo tipo de escrita nesta carta ser muito diferente das outras. Ocorre que ela foi escrita tendo em Paulo sua inspiração, e é por isso, por guardar relação com as ideias de Paulo, que a carta aos Hebreus permanece nessa lista.

Alguns acham que pode ter sido Lucas o autor da Carta aos Hebreus, o mesmo que escreveu o Evangelho de Lucas, que escreveu Atos dos Apóstolos e que teria escrito também Hebreus, mas não há como ter essa certeza quanto à autoria. É muito provável que o autor tenha sido alguém ligado a Paulo, porque o pensamento, o modo de explicar e propor são bem semelhantes aos de Paulo.

Paulo escrevia suas cartas para orientar as comunidades, como se fosse um curso à distância, enquanto ele pregava em outros lugares, levando o evangelho e ajudando a organizar as novas comunidades cristãs. Ele buscava, através das cartas, manter o vínculo e a unidade com as outras comunidades. O fato é que Paulo usava todos os meios de que dispunha para Evangelizar e para manter a coerência da Igreja.

Se em seu tempo houvessem redes sociais, é certo que Paulo as usaria.

Além de orientar as comunidades em si, Paulo também escrevia cartas para seus auxiliares, a quem havia deixado para pastorear uma determinada região ou comunidade, que é o caso, por exemplo, de Timóteo, um auxiliar de Paulo e para quem eram destinadas as cartas de Timóteo.

É claro que, como já dissemos no primeiro capítulo, a Bíblia foi a coletânea, a reunião de textos escolhidos, então existem Cartas de Paulo que não estão na Bíblia. Mas como sabemos disso?

Basta observar, por exemplo, o texto trazido no capítulo 4 de Colossenses, versículo 16:

E quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses; e a que veio de Laodiceia, lede-a vós também.

Ou seja, Paulo está escrevendo uma Carta para a comunidade dos Colossenses e outra para a comunidade de Laodiceia, e dizendo que, assim que as duas comunidades tiveram lido o texto para elas destinado, é para repassar estes textos uma para a outra, para que ambas possam compartilhar dessas orientações.

Ocorre que nos chegou apenas a Carta destinada aos Colossenses, enquanto a Carta mencionada aos Laodicenses se perdeu, ou não chegou até nós. O mesmo ocorre com a possível e provável terceira Carta destinada aos Coríntios.

Então, depois das cartas de Paulo, temos as sete cartas que chamamos de Cartas Gerais, por tratarem de temas gerais e por não serem dedicadas a alguma comunidade específica.

Essas sete cartas têm ideias mais amplas, e são: a carta de Tiago, a primeira e a segunda carta de Pedro, a primeira, a segunda e a terceira carta de João, e por fim a carta de Judas, que fecham as Cartas do Novo Testamento.

O último livro do Novo Testamento e, consequentemente, o último livro da Bíblia, é o Apocalipse. A palavra Apocalipse vem também do Grego (ἀποκάλυψις – apokálypsis), e significa revelação, ou seja, é algo que está sendo revelado.

Este é sem dúvidas o livro mais mal entendido da Bíblia, porque é um livro cheio de símbolos e códigos — mas quem descobre o significado do Apocalipse se encanta por ele, e passa a vê-lo como um dos livros mais belos da Bíblia.

O Livro do Apocalipse não trata do fim do mundo, como muitos acreditam, não sendo a revelação de uma série de catástrofes que estão por vir. Não. O Apocalipse trata de esperança, de fé, do amor de Deus. Então, todo mundo que você ouvir falar “Ah, o Apocalipse está chegando”, “o Apocalipse vai acabar com tudo”, está mal informada, ou por ter lido de forma equivocada ou por ter sido convencida disso por outra pessoa, ou mal intencionada ou igualmente mal informada.

AS DIFERENÇAS ENTRE A BÍBLIA CATÓLICA E A BÍBLIA PROTESTANTE

Por que existem diferenças entre a Bíblia Católica e a Bíblia Protestante?

Essa é uma questão que sempre surge quando vamos estudar a Bíblia, principalmente porque a Bíblia, assim como debatemos no capítulo 1, foi produzida pelas mãos humanas, e não por uma vontade divina — ou seja, é um livro de textos escolhidos, e essa escolha implica também na restrição de determinados conteúdos.

Como já abordado, existem sete livros que estão na Bíblia Católica, mas não estão na Bíblia Protestante, que são: Tobias, Judite, I Macabeus, II Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc.

Além desses sete livros, na Bíblia Protestante faltam alguns trechos dos livros de Ester e de Daniel.

A Bíblia Católica tem, no total, setenta e três livrinhos, enquanto tem-se na Bíblia Protestante sessenta e seis livrinhos, sete a menos. O Antigo Testamento, na Bíblia Católica quarenta e seis livrinhos, sendo o Antigo Testamento da Bíblia Protestante composto por trinta e nove livrinhos. Já o Novo Testamento, tanto na Bíblia Católica quanto na Bíblia Protestante, é composto pelos mesmos vinte e sete livrinhos.

A grande diferença então, das Bíblias Católica e Protestante, está no Antigo Testamento, com os sete livros a menos, e essa diferença é o resultado da montagem da Bíblia, como veremos agora.

Veja bem, o Antigo Testamento é tudo aquilo produzido antes de Cristo, e o Novo Testamento possui como fundamento inicial a vinda de Jesus como Cristo. Então, obviamente, a montagem original do Antigo Testamento não foi feito por cristãos, nem católicos e nem Protestantes, e sim pelos Judeus, com quarenta e seis livros.

O caminho para os Evangelhos foi o seguinte: existia o Antigo Testamento, e com a vinda e pregação de Jesus surge um novo conjunto de ensinamentos, a boa nova, que foi escrito pelos apóstolos após a morte de Jesus e se tornou o Novo Testamento.

Então fica o questionamento: qual montagem do Antigo Testamento Jesus e os apóstolos usavam? Quais textos Ele lia na Sinagoga?

Eles utilizavam o Antigo Testamento com quarenta e seis livros, que era o maior e mais completo, com todos aqueles sete livros, que era o único que existia naquele tempo.

Então, após o início da Igreja de Cristo, cerca de cem anos depois, os Judeus refizeram o Antigo Testamento, e os critérios adotados pelos Judeus deste período para inclusão e exclusão de determinados livros foi estabelecer que só utilizariam os escritos produzidos até Esdras e Neemias. Assim, o “novo” Antigo Testamento dos Judeus passou a ter trinta e nove livros, excluindo-se aqueles sete livros já citados.

Acontece que os cristãos continuaram a usar, como Antigo Testamento, a versão com quarenta e seis livros — isso porque este foi o mesmo Testamento usado por Jesus e pelos apóstolos em seu tempo, e que os Católicos utilizam até hoje. Ficaram assim dois Antigos Testamentos, o maior, que os Católicos permaneceram usando, e o menor, que os judeus passaram a usar.

Com a Reforma Protestante de Lutero, em 1517, mil e quinhentos anos depois de Jesus, para se afastar ainda mais dos Católicos, os Protestantes adotaram a versão mais curta do Antigo Testamento, a dos Judeus dessa época, e é essa a razão da Bíblia Protestante ter sete livros a menos.

É preciso frisar que Martinho Lutero decidiu adotar o Antigo Testamento dos Judeus modernos, não o Antigo Testamento dos Judeus antigos, aquele que Jesus usou e que os apóstolos usaram. Então, se você ouvir alguém na internet ou em qualquer lugar, falando que a Igreja Católica acrescentou livros, não é verdade. A Igreja Católica não acrescentou livros. A Igreja Católica sempre usou o Antigo Testamento, só que o mesmo que já era usado na época de Jesus. Os Protestantes é que adotaram o Antigo Testamento posterior a Jesus, dos Judeus.

A redução no número de livros da Bíblia cria algumas questões interessantes, como por exemplo o fato de, ao se retirar o livro de Tobias, na Bíblia Protestante não há menção ao anjo Rafael, havendo os anjos Miguel e Gabriel, mas não Rafael. Também não há menção, na Bíblia Protestante, à Oração dos Mortos presente em Macabeus.

Agora, o fato que para mim é o mais interessante sobre as diferenças que se produzem devido à ausência desses livros, é a que se refere ao Primeiro Capítulo do Evangelho do Profeta João, que foi bastante influenciado pelos livros da Sabedoria, Eclesiástico e Baruc, que não existem na Bíblia protestante, e isso pode levar a uma certa incompreensão do texto de João, ou no mínimo, conduzir a uma leitura equivocada.

OS TEXTOS APÓCRIFOS

Há muita controvérsia sobre estes livros apócrifos4, inclusive que alimentam diversas Teorias da Conspiração5, desde teorias sobre a Igreja Católica ter escondido estes livros porque neles continham verdades que iriam derrubar a Igreja até que teriam diversas revelações sobre os mais variados temas.

Mas, de saída, precisamos explicar que há, de fato, textos apócrifos reais, aqueles que por uma série de fatores não foram incorporados à Bíblia, e há os textos apócrifos que sequer correspondem ao período mencionado ou que sequer existem de fato, que foram sendo criados ao longo do tempo através da conspiração que acabam evocando.

É como se existisse, neste caso, aquilo que aconteceu, aquilo que dizem que aconteceu e ainda aquilo que dizem que disseram que aconteceu.

Mas o que é, então, esse tal de livro apócrifo? O que significa isso?

A primeira coisa é que, na verdade, a Igreja Católica não retirou da Bíblia os livros apócrifos porque estes livros nunca entraram na Bíblia.

A Bíblia, como temos hoje, Antigo e Novo Testamento, foi apresentada pelo Papa Damásio I, e foi ele o primeiro a organizar e dizer quais seriam os livros que comporiam a Bíblia Sagrada, e estes livros apócrifos nunca fizeram parte dessa seleção.

Também não é verdade que a Igreja Católica não quis colocar esses livros na Bíblia por qualquer motivo que seja, em termos de esconder fatos, ocultar segredos ou manter as pessoas na ignorância.

Como dissemos, a escolha pelos textos que irão compor um livro sagrado se dá por critérios objetivos, que são humanos, e neste caso, a escolha se deu grandemente em virtude de estes textos escolhidos terem relevância paras as comunidades cristãs. É o mesmo que dizer que a escolha se deu pelos livros que já eram utilizados, ou seja, pela tradição e pelo uso, o que dá a relevância destes textos. Este foi o critério inicial: o uso desses livros pelas comunidades.

Se as comunidades cristãs já utilizavam esses livros, já os liam, já estudavam, já meditavam, já aprendiam, já cresciam na fé com esses livros, então seriam esses livros agrupados e reunidos para fazer parte dessa coletânea de textos sagrados, que é a Bíblia.

Ninguém chegou com um livro que foi escrito ontem e disse que deveria ser adicionado à Bíblia. Isso não existiu, e como também já dissemos, a prática da fé é muito importante para a teologia da Igreja, porque a tradição da fé é um dos argumentos para se compreender a fé cristã — o texto sagrado junto à tradição.

É importante lembrar que a escolha desses livros, não se deu do dia para a noite, e muito menos que tenha se dado sem critério. Foi um processo que durou quase 400 anos, indo desde o início da pregação de Jesus e do trabalho apostólico até a edição da Bíblia.

O maior motivo para que estes livros apócrifos não tenham entrado para a formulação da Bíblia é que foram escritos depois da formulação da Bíblia, mesmo aqueles que relatam histórias ou mesmo que digam terem sidos escritos na época de Jesus. Eles não fizeram parte do nascedouro da Igreja, não fizeram parte das leituras das comunidades.

Os textos apócrifos eram textos muito específicos de algum grupo que não tinha relação com a tradição apostólica, porque esses escritos não foram escritos pelos apóstolos ou por pessoas diretamente ligadas a eles, como os outros textos do Novo Testamento.

Então, os textos apócrifos foram escritos por pessoas que não conheceram Jesus pessoalmente, não conheceram os apóstolos e não estavam ligados a eles, não vivenciando o tempo do ministério de Jesus e do ministério dos apóstolos. São pessoas que viveram 200, 300 anos depois de Jesus Cristo e que, em alguns casos, traziam doutrinas estranhas ao Evangelho, pegando muito do misticismo de outras religiões.

Assim, a principal diferença entre os textos apócrifos e os textos canônicos, ou seja, aqueles cuja veracidade e origem são conhecidas e aceitas, é que os canônicos trazem os relatos de pessoas que conviveram com Jesus ou com os Apóstolos.

A palavra apócrifos acabou ganhando o significado de escondido, e eles são chamados de escondidos não porque tenham sido escondidos por alguém ou porque contenham coisas importantes. Não é nada disso.

São chamados de escondidos no sentido de não poderem ser lidos publicamente. Não são para ser lidos no culto, na liturgia, na missa, na cerimônia, porque não são considerados livros. Não são livros para inspirar a palavra de Deus em nós. Este é o entendimento da Igreja sobre eles. Por isso são chamados apócrifos.

Agora, quais são esses livros, e o que eles trazem? Vejamos alguns deles:

– Enoque

– Assunção de Moisés

– Testamento dos 12 Patriarcas

– Testamento de Jó

– Salmos 151 a 155

– Evangelho de Tiago

– Evangelho de Tomé

– Evangelho de Pedro

– Atos de Pilatos

– Morte e Assunção de Maria

– Apocalipse de Pedro

Estes são alguns dos livros apócrifos, Livro de Enoque, Assunção de Moisés, Testamento dos Doze Patriarcas, Testamento de Jó, Salmos de 151 a 155 (sendo que a Bíblia contém até o Salmo 150), Evangelho de Tiago, Evangelho de Tomé, Evangelho de Pedro, Atos de Pilatos, Morte e Assunção de Maria e Apocalipse de Pedro.

Obviamente que essa é uma lista muito pequena dos textos apócrifos, porque existem muitos mais e, na verdade, com o passar do tempo aparecem ainda mais textos, contando fatos do Antigo e do Novo Testamento.

Como dissemos, os textos apócrifos são escondidos porque não devem ser lidos em público, e sua exclusão se deveu ao fato de serem posteriores a própria compilação da Bíblia, no entanto, não é por serem apócrifos que alguns deles não tragam ensinamentos valiosos.

Há sim aqueles que trazem notícias importantes e verdadeiras, só não são considerados sagrados para entrar na Bíblia Sagrada.

Como exemplo, podemos citar o livro de Enoque, que é um apócrifo do Antigo Testamento. Ele não é considerado um livro canônico, não estando na lista dos livros sagrados, nem da Bíblia Católica e nem da Bíblia Protestante, porém está no cânon da Bíblia Etíope.

A Bíblia Etíope tem mais livros que a nossa Bíblia, somando 81 no total, e um desses livros é o de Enoque, que apesar de não estar na nossa lista de livros sagrados, influenciou muito o Novo Testamento.

Paulo cita entendimentos que estão no livro de Enoque, como quando cita o terceiro céu — uma expressão que Paulo usa e que está apenas no livro de Enoque. Já a carta de Pedro e a carta de Judas, no Novo Testamento, citam diretamente o livro de Enoque e informações que estão contidas nele.

A Assunção de Moisés e o Testamento dos Doze Patriarcas, mais o livro de Enoque, são três apócrifos que Judas cita em sua carta dele. Ou seja, a carta de Judas cita como fonte de pesquisa três livros que são considerados apócrifos.

Outro detalhe interessante é que o nome dos pais de Maria, mãe de Jesus, ou seja, os avós de Jesus, Santa Ana e Joaquim, aparecem somente no Evangelho de Tiago, que também é considerado um apócrifo. Então, mesmo que o Evangelho de Tiago não esteja na Bíblia, traz informações interessantes que a tradição da Igreja adotou.

Em Atos de Pilatos, que conta a versão e a história de Pôncio Pilatos, governador Romano da Judeia na época da crucificação de Jesus, traz a notícia de uma mulher chamada Verônica que, durante a Via Sacra de Jesus, ou seja, durante o trajeto em que Ele carrega a cruz, teria enxugado o rosto dele com um pano, onde ficou a marca do rosto. É o pano de Verônica, que é inclusive uma estação da Via Sacra.

Quem faz a Via Sacra sabe que Verônica enxuga o rosto de Jesus, no entanto, na Bíblia, quer seja a Católica ou a Protestante, não se encontrará a história de Verônica, porque ela não está contada ali — assim como a morte e ressurreição de Maria.

Os Católicos creem que, ao final da vida terrestre de Maria, ela foi elevada ao céu de corpo e alma. Isso é um dogma de fé mariano. É um dogma de fé da Igreja Católica. Mas de onde a Igreja Católica tirou isso? Justamente de um texto apócrifo, chamado Morte e Assunção de Maria.

Os textos apócrifos podem ser lidos como curiosidade, como cultura, como aquisição de conhecimento, mas não como doutrina, porque isso cabe à Bíblia Sagrada, ao magistério da Igreja, à tradição da Igreja.

Os termos que os Católicos usam sobre os diferentes textos da Bíblia não são os mesmos nomes que os Protestantes usam.

Os católicos têm um termo chamado protocanônicos6, que são os primeiros livros a serem tidos como sagrados, os primeiros livros a entrarem na Bíblia. Ou seja, os primeiros a entrarem na lista de livros sagrados e que são chamados, pelos Protestantes, de canônicos.

Os livros que entraram em segundo lugar na listagem sagrada são chamados pelos Católicos de deuterocanônicos7 (Tobias, Judite, I Macabeus, II Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc), e os protestantes os chamam de apócrifos, que não estão na Bíblia Protestante.

Para os Católicos, eles são livros para se ler em público, são deuterocanônicos, entraram em segundo lugar, e para os protestantes, eles são apócrifos, devem ser mantidos fora da lista sagrada.

Tem uma terceira categoria de livros ainda que são os que os Católicos chamam de apócrifos. Preste atenção: o que os protestantes chamam de apócrifos não é o mesmo que os Católicos chamam de apócrifos.

Segundo os Católicos, os livros apócrifos são os livros que não entraram nem no Antigo Testamento e nem no Novo Testamento, nem em Bíblia nenhuma, nem Católica e nem protestante.

Existe uma série de livros que contam do Evangelho, contam Cartas de apóstolos, conta a história de Pedro, a História de Tiago, história do Antigo Testamento e que nunca entraram na Bíblia. É a esses livros que os Católicos chamam de apócrifos, enquanto os protestantes não os chamam de apócrifos, porque para eles, apócrifos são aqueles sete livros da Bíblia Católica ausentes na Bíblia Protestante). Aos livros apócrifos referidos pelos Católicos, os Protestantes chamam de pseudoepígrafos, ou seja, falsos escritos.

Podemos resumir o modo como os Católicos e protestantes se referem aos livros da seguinte forma:

TIPO DO LIVROCATÓLICOSPROTESTANTES
Livros que estão em todas as BíbliasProtocanônicosCanônicos
7 livros gregos que estão no Antigo Testamento da Bíblia CatólicaDeuterocanônicosApócrifos
Livros que nunca entraram na BíbliaApócrifosPseudoepígrafos

Então, quando estiver conversando com um Protestante e falarem sobre os livros apócrifos, saiba que estarão falando de coisas muito diferentes entre si, ainda que estejam usando o mesmo termo.

Esses são alguns livros que não entraram no Antigo Testamento: “A Vida de Adão e Eva”, “Primeiro Enoque”, “Segundo Enoque”, “Apocalipse de Abraão”, “Testamento de Abraão”, “Testamento de Isaac”, “Testamento de Jacó”, “Escada de Jacó”, “Testamento dos Doze Patriarcas”, “Assunção de Moises”, “Testamento de Jó”, “Salmos de Salomão”, “Testamento de Salomão”, “Apocalipse de Elias”, “Ascenção de Isaías”, “Apocalipse de Sofonias”, “Apocalipse de Esdras”, “Apocalipse de Sidrac”, “Terceiro Macabeus”, “Quarto Macabeus”, “Salmos de 151 a 155”.

Estes são alguns textos do Antigo Testamento que contam a história do Antigo Testamento, mas não entraram na lista sagrada porque os Judeus entenderam que esses livros não continham a mensagem central que foi trabalhada no Antigo Testamento. Eram livros que não caíram no gosto das pessoas, não passaram a ser lidos pelas comunidades.

Vamos agora a lista de alguns livros que contam histórias do Novo Testamento, que os católicos chamam de apócrifos e os protestantes chamam de pseudoepígrafos. São eles: “Evangelho segundo os Hebreus”, “Proto-Evangelho de Tiago” (ou também chamado “História do Nascimento de Maria”), “Evangelho de Tomé”, “Evangelho de Pedro”, “Evangelho de Nicodemos”, “Evangelho dos Doze Apóstolos”, “Evangelho segundo os egípcios”, “Evangelho de André”, “Evangelho de Felipe”, “Evangelho de Bartolomeu”, “Evangelho de Barnabé”.

É importante saber que esses textos, embora tenham esses nomes, não foram escritos por nenhum desses apóstolos. São textos de 200, 300 anos depois dos apóstolos, tendo sido escritos por pessoas que os assinaram com o nome dos apóstolos. Não haveria problema algum se esses textos contivessem a mensagem de Cristo, mas eles trazem muitas doutrinas dos gnósticos8. O Evangelho de Tomé, por exemplo, é um Evangelho gnóstico.

Ao contrário do que pregavam os gnósticos, Paulo, em Primeiro Timóteo, capítulo 4, diz que o ensino da proibição do casamento tem origem em doutrinas de demônios e que essa proibição, em vista de dizer que o corpo é mau não é um ensino compatível com Jesus, havendo muitos conflitos entre Paulo e os gnósticos nesse tipo de doutrina.

Para esse grupo, Cristo não se fez homem, sendo apenas uma aparência de homem, porque a matéria é má, então Deus não poderia ter se revestido de matéria. Na primeira Carta de João, vemos: “quem nega que Jesus se encarnou é o anticristo”, e aqui João estava falando dos gnósticos, que foram os responsáveis pela produção de muitos dos textos apócrifos aqui citados.

Assim, esses textos nunca entraram no Novo Testamento por causa dessa contaminação da filosofia gnóstica. Existem outros textos apócrifos que são muito fantasiosos e, de fato, não combinam com a simplicidade do Evangelho.

Alguns desses textos, por exemplo, narram a infância de Cristo e o mostram como um Jesusinho mágico, como um garotinho que fazia mágica, com histórias em que Jesus fez aparecer animais dentro da casa de alguém, que ressuscitava passarinhos para os amigos verem, fazia brincadeiras de mau gosto, que não tem a ver com a simplicidade com que Jesus lidava com as pessoas, com a vida.

Vamos apresentar aqui um texto do Evangelho de Tiago, para que você perceba um pouco a leitura de um texto apócrifo ou de um texto pseudoepígrafo. É o próprio Evangelho de Tiago que está narrando o nascimento de Cristo. A cena se dá quando José está em busca de uma parteira, pois Jesus vai nascer:

“Então a mulher que descia a montanha me perguntou: ‘Onde vais?’ Respondi: ‘Procuro por uma parteira hebreia’. A mulher diz: ‘Você é de Israel?’ José respondeu: ‘Sim’. Então ela disse: ‘Quem está dando à luz na caverna?’ Ele disse: ‘Minha esposa’. Ela replicou: ‘Mas não é tua mulher?’ Respondi-lhe: ‘É Maria, aquela que foi criada no templo do Senhor, de fato, me foi dada por mulher, mas não é, e agora concebe por obra do Espírito Santo’. Disse a parteira: ‘Isso é verdade?’ José respondeu: ‘Vinde e vede’. Então a parteira foi com ele e chegando à casa pararam, pois estava coberta por uma nuvem luminosa. Disse a parteira: ‘Minha alma foi agraciada, pois meus olhos viram coisas incríveis e a salvação para Israel nasceu’. Então a nuvem saiu da caverna e de dentro brilhou uma forte luz, de forma que os nossos olhos não conseguiam ficar abertos e a luz começou a diminuir e viu-se que o menino mamava no peito de sua mãe, e a parteira gritou: ‘Hoje é o meu grande dia! Vi com meus olhos um novo milagre’, e saindo da gruta, veio ao seu encontro Salomé. Disse a parteira: ‘Salomé, Salomé, preciso contar uma maravilha jamais vista, uma virgem deu à luz’. ‘Como sabes? Isso é impossível para a natureza humana’, respondeu-lhe Salomé. ‘Pelo Senhor meu Deus, não acreditarei enquanto não puder tocar os meus dedos em sua natureza para examinar-lhe’. Então a parteira entrou na caverna e disse à Maria: ‘Prepara-te porque existe uma dúvida sobre ti entre nós’. E Salomé pôs o dedo na natureza de Maria e soltou um grito: ‘Ai de mim, minha malícia e incredulidade são culpadas, eis que minha mão foi carbonizada e desprendeu-se do meu corpo por tentar ao Deus vivo'”.

Como se pode ver, o texto é bonito, mas sua conclusão é terrível. Trata-se de uma parteira encontrando a uma amiga, e essa amiga vai até Maria e toca em seu órgão sexual para verificar a virgindade, e diz que sua mão pegou fogo e caiu do braço por ter duvidado!

São textos fantasiosos e que não entraram na Bíblia porque nunca tiveram crédito diante das pessoas.

Ao se pegar os quatro Evangelhos, percebemos que são de uma simplicidade única, são escritos de uma maneira que não têm mistério, que não querem provar nada para ninguém. Eles narram o que viram, sem a necessidade de embelezamentos, porque era a narração tal qual foi vista.

Dentre os livros do Antigo Testamento que não entraram na lista sagrada, o livro de Enoque, escrito 200 anos antes de Cristo, é o mais famoso. Ele não está na Bíblia, mas foi muito lido, muito conhecido pelos apóstolos.

Paulo, quando fala das dimensões do céu, que subiu até o terceiro céu, fala isso baseado na ideia do livro de Enoque, escrito 200 anos antes de Paulo. Paulo conhecia esse livro.

A segunda carta de Pedro, que fala do pecado que os anjos cometeram em Gênesis 6, tem um texto muito estranho onde diz que os filhos de Deus (benay heloim), que são os anjos, e que tiveram relações com as filhas dos homens, geraram filhos gigantes. Quem detalha essa história é o livro de Enoque, que traz o detalhamento de Genesis 6. Pedro, em sua segunda carta, usa o detalhamento do livro de Enoque para citar esse episódio que acontece antes do dilúvio.

Isso mostra que Pedro também conheceu o livro de Enoque, assim como Judas, que fez um resumo do livro de Enoque.

O mais importante então, para ler a Bíblia, é usar os quatros Evangelhos como filtros para a leitura e compreensão dos demais, inclusive dos textos apócrifos.

CAPÍTULO 3 – A HISTÓRIA QUE A BÍBLIA CONTA

Mas afinal, qual é a história que a Bíblia conta? É para responder a essa pergunta que nos dedicaremos agora neste capítulo, onde vamos, de certa forma, resumir todos os 73 livros da Bíblia.

O estudo da Bíblia pode ser um caminho sinuoso e difícil. São muitos livros e cada um deles contém muitas informações, histórias e metáforas. É como se, ao iniciar estes estudos, fossemos iniciar uma longa caminhada e que, se for seguida a pé, pode nos conduzir a desentendimentos e até mesmo certas situações que não estamos, de antemão, preparados para superar.

Imagine uma estrada feita em um caminho muito longo. Há muitos morros neste caminho e você não saberá, antes de começar a jornada, se a estrada tem muitas curvas, barrancos e buracos. Via de regra, a pessoa que começa uma longa jornada não sabe nada sobre o caminho que terá de percorrer.

Então a melhor maneira de começar essa jornada é conhecer o percurso, e para isso, nada melhor do que conseguir mapear a área por cima, como se estivéssemos dentro um helicóptero que percorre do alto toda a extensão do caminho que, num segundo momento, será percorrido a pé.

Essa é a nossa jornada de agora, um sobrevoo aos livros da Bíblia do alto, numa visão de helicóptero, para que, quando você voltar para a sua caminhada, já esteja mais tranquilo para prosseguir, porque terá uma ideia um pouco mais clara daquele caminho e de todas as suas características, conhecerá os perigos da estrada, suas curvas. Assim, ficará mais fácil caminhar por essa estrada.

Vamos então sobrevoar a estrada da Bíblia. Claro que existem muitas ruas paralelas, mas vamos sobrevoar a estrada principal para que se possa ter uma visão global da principal rota, dos principais destinos da Bíblia.

A Bíblia, assim como quase tudo na vida, deve ser conhecida a partir do seu início, porque esse início é muito importante para a nossa compreensão geral, isso porque é o início das coisas que nos fornece os elementos de compreensão para o que virá a seguir. Por isso, vamos começar logo pelo começo.

O primeiro livro da Bíblia é Gênesis. Deus criou um mundo bom e compartilhou sua alegria com todos os seres criados. Então, Deus criou o mundo e tudo que Ele criou era bom, mas o ser humano o desobedeceu.

E esse ser humano, que chamamos de primeiros pais, Adão e Eva, fizeram o pecado entrar na história. O pecado entrou no mundo e começou a corromper o ser humano. A partir daí, logo nas primeiras páginas da Bíblia, tem-se uma cena dramática: Homem e mulher se escondem, com medo de Deus. Ao perceberem que tinham pecado, sentem como primeira emoção o medo, o temor a Deus.

Observe que a primeira emoção que a Bíblia relata não é alegria, não é paz, não é entusiasmo, não é tristeza. A primeira emoção de que a Bíblia fala é medo. E medo de Deus.

“Adão. Onde está, Adão?” Deus procura por Adão, que escondido, diz: “Estou aqui. Eu me escondi porque eu comi do fruto que era proibido”. É daí que começa uma relação de medo entre o ser humano e Deus, e assim, a tentativa do ser humano em agradar a Deus, fazendo sacrifícios e trazendo oferendas para acalmar a ira divina: Caim e Abel, descendentes de Adão e Eva, fazem sacrifícios à Deus, e Caim acaba matando Abel.

Depois disso, tem-se o dilúvio, enviado por Deus para salvar o mundo. Deus chamou Noé, que era justo, e mandou que fizesse uma arca para que salvasse a si, junto de sua família. Ao final do dilúvio, Noé fez um sacrifício a Deus, juntando alguns animais, os sacrificando e oferecendo à Deus.

Na sequência, tem-se a história da Torre de Babel, onde a soberba do homem, que não havia acabado, fez surgir a Torre de Babel, que era uma obra de engenharia para celebrar o poder do homem frente a Deus: o homem queria agora construir uma torre para chegar ao céu. Deus interveio e nada restou.

A partir do capítulo 12 de Gênesis, surge um homem chamado Abraão, que teria vivido mil e oitocentos anos antes de Cristo e foi escolhido por Deus para dar início ao seu povo escolhido. Deus promete a Abraão uma terra, uma boa terra, e uma grande e numerosa descendência, um grande povo.

A partir deste período, podemos começar a datar cada episódio e situar, com uma precisão mais ou menos correta, o lugar em que estes fatos aconteceram, como podemos observar no mapa abaixo:

Abraão é de uma cidadezinha chamada Ur, perto da Babilónia, na Caldéia, localizada do lado esquerdo do Rio Eufrates. Abraão então, ouvindo a promessa de Deus, sai de onde estava e vai para a região de Canaã.

Em Canaã, Abraão constitui a sua vida, a sua família, casando-se com Sara, que não podia ter filhos, pois era estéril. Abraão, que já tinha oitenta e seis anos, foi orientado pela esposa a ter um filho com sua escrava, Agar, e assim nasceu Ismael.

Sara diz: “Como é que você vai ser pai de uma grande nação? Como é que vai ter um povo que vai nascer de você? Se eu sou estéril”. Abraão teve então um filho com a escrava, mas anos mais tarde, quando Abraão já tinha noventa e nove anos, Sara ficou grávida e deu à luz Isaac.

Enciumada com a relação de Abraão com Ismael com a escrava, pois agora lhe daria um filho, Sara pediu a Abraão que expulsasse Agar e Ismael de casa. Apesar da tristeza, pois Ismael também era o seu filho, ele pediu que fossem embora, ficando com a esposa legítima e seu segundo filho, dando início a um problema de família.

O primeiro filho de Abraão, Ismael, deu origem ao povo árabe, que se tornou mais tarde o povo muçulmano, enquanto que Isaac deu origem ao povo de Israel, e apesar de Israelitas e Muçulmanos terem o mesmo pai, que é Abraão, os Muçulmanos, os primeiros filhos, são filhos da escrava e os israelitas da esposa legítima.

Assim, quem terá mais direitos? Lá naquelas terras, o filho primogênito teria mais direitos, sendo que a herança não era dividida meio a meio e o primeiro filho recebia uma parte maior, fazendo surgir a briga entre Judeus e Muçulmanos.

Para os Muçulmanos, eles são os primeiros filhos de Abraão por serem descendentes do primeiro filho, Ismael, enquanto que para os Judeus, eles são os primeiros filhos de Abraão porque são descendentes do filho da esposa legítima, considerando que os Muçulmanos são filhos de uma escrava. Essa briga está por detrás de muitas guerras que perduram até hoje.

Na sequência, Abraão oferece seu próprio filho, Isaac, em sacrifício, mas é impedido pelo anjo de Deus. Veja que Caim e Abel faziam sacrifícios, Noé fez sacrifícios, agora é Abraão que faz o sacrifício.

Isaac, o filho de Abraão que seria posto em sacrifício, mas que foi impedido pelo anjo de Deus, teve dois filhos, Esau e Jacó. Jacó, que depois recebeu o nome de Israel, teve doze filhos, Rubem, Simeão, Levi, Judá, Dan, Naftali, Gad, Asser, Issacar, Zebulon, José e Benjamim, que deram origem às doze tribos de Israel. Então, quando você ouvir falar de doze tribos de Israel, estarão se referindo aos filhos de Jacó, que se tornou Israel.

As doze tribos têm início com os bisnetos de Abraão. E aí nós chegamos na última história de Gênesis: José, por ser o filho mais querido de Israel, despertou o ciúme dos irmãos, e por isso eles o venderam como escravo.

José acabou sendo levado para o Egito, onde se tornou um grande governador. Então, dos doze filhos de Jacó, também chamado Israel, um se tornou governador do Egito, onde chegou como escravo depois de ter sido vendido pelos irmãos.

Mais tarde, com uma grande seca e fome que se alastrou pelo mundo, os domínios de José tornaram-se os mais ricos, atraindo para lá seu pai e seus irmãos que, refeitos na amizade, passam a conviver novamente. É assim que o povo de Israel vai parar no Egito.

E aqui termina o livro do Gênesis, quando todos os irmãos e o pai de José chegam ao Egito por causa da fome e lá, onde José era um ótimo e rico governador, se instalam e passam a viver.

Os anos desde José se passaram, o povo de Israel havia crescido muito no Egito e um novo faraó, que não conheceu a José, tornou o povo de Israel seu escravo. Aqui surge a figura de Moisés, chamado por Deus para libertar os libertar.

É chegada a data de 1.240 a.C., ano das famosas dez pragas. Temos a abertura do Mar Vermelho e a libertação do povo de Israel do Egito, e nesse momento foi instituída a celebração da Páscoa com o sacrifício do cordeiro. Um cordeirinho, um filhote de ovelha com menos de um ano de idade, era sacrificado e seu sangue passado nos portais. Isso era a Páscoa, a celebração da libertação do Egito.

Veja, mais uma vez estamos falando de sacrifício. Falamos do sacrifício de Cain e Abel, falamos do sacrifício de Noé, de Abraão e agora de Moisés, sacrifícios que nasceram com o objetivo de acalmar a ira de Deus, de não cair sobre nós a ira divina. Mata-se o animal para que ele caia a ira de Deus, não sobre aquele que está oferecendo o sacrifício.

Moisés sai então à frente do povo em busca da terra prometida, ou seja, de um país para o povo de Deus. No deserto, o povo caminha 40 anos, sendo neste período que Deus firma com o povo a aliança e lhes apresenta os 10 mandamentos. Então, nós temos: Abraão sai de Ur, vai para Canaã, de Canaã seu povo foi parar no Egito e agora Moisés tira o povo do Egito em direção ao deserto.

Mas eles estão no deserto indo em qual direção? Estão fugindo do Egito rumo à terra prometida, a terra onde corre leite e mel, a terra onde podem viver em paz, a terra onde eles poderão descansar, mas Moisés não conseguiu terminar a viagem, morrendo antes de alcançar a terra prometida.

No seu lugar assumiu Josué, que conquistou a terra de Canaã, expulsando dali seus habitantes. Chegaram à terra prometida e a reconquistaram, voltando para Canaã, visto que ali era a terra que foi de Abraão, onde Abraão viveu quando saiu de Ur.

Aqui entendemos um pouco melhor os conflitos que até hoje perduram nessa região. A terra de Canaã, que hoje chamamos de Palestina, foi tomada pelos Israelitas, e seus antigos moradores, os cananeus ou palestinos, até hoje reivindicam que a terra é deles.

Nós temos aqui Abraão, 1.800 a.C.. Nós temos Moisés, 1.240 a.C.. Agora começamos a chegar no tempo dos juízes9, 1.100 a.C.

Nessa época, o povo de Israel era governado pelos juízes, dos quais podemos destacar Débora, Gedeão, Jefté, Sansão e Samuel, o último juiz.

Não havia rei humano em Israel, pois o único rei era o Senhor Deus. Contudo, por volta do ano 1.020 a.C., Israel passou a ser uma monarquia, sendo o primeiro rei Saúl. Assim instaurou-se Reino de Israel.

Então, o primeiro rei de Israel, no ano 1.020 a.C., foi o rei Saúl.

Chegando ao ano 1.000 a.C. encontramos a figura de Davi. Saúl não foi um bom rei, e Davi foi seu sucessor, o maior dos reis a quem Deus promete um reino que não terá fim.

Desde a época dos juízes até agora, passamos pelos livros de Juízes, Ruth, 1º e 2º Samuel, 1º e 2º Reis, 1º e 2º Crónicas, Isaías, Jeremias, Lamentações, Baruch, Oséias, Amós, Naum e Habacuque, até chegarmos ao ano 587 a.C., que é quando Nabucodonosor, o rei da Babilônia, invade Jerusalém, destrói tudo e leva toda população como prisioneiros.

É o chamado cativeiro na Babilônia, que só vai terminar em 538 a.C., quando uma parte dos judeus volta para a sua terra e restaura a religião judaica.

Os livros de Ezequiel, Esdras e Neemias vão contar isso, a volta daqueles que tinham sido levados embora de sua terra, e que retornam para reconstruir o palácio, reconstruir o templo, reconstruir o reino.

Perceba que eles estão atrás de uma terra onde corre leite e mel, uma terra onde eles possam ter descanso, uma terra onde eles possam ter consolo e conforto, mas encontram o tempo todo com a guerra, com invasões, com domínio. A partir daí a terra de Israel começa a ser dominada sucessivamente por outros povos. Primeiro o Império Egípcio, seguido do Império Sírio, do Império Persa, do Império Grego e do Império Romano.

Todas essas dominações levantam a esperança por um Messias, sendo nesse período que começa a brotar no coração deles o desejo de um Messias, de um libertador, de alguém para nos tirar das mãos desses estrangeiros que dominavam suas terras.

São desta época os livros de Tobias, Judite, Ester, Primeiro Macabeus, Segundo Macabeus, Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico, Daniel, Joel, Abdias, Jonas, Ageu, Zacarias e Malaquias. E assim fechamos o Antigo Testamento, com a esperança no aparecimento de um Messias, de um libertador.

COISAS DEIXADAS EM ABERTO NO ANTIGO TESTAMENTO

Antes de irmãos para o Novo Testamento, precisamos fazer uma observação muito importante, porque Antigo Testamento termina deixando alguns temas em aberto.

O primeiro tema se refere aos sacrifícios, que eram feitos para agradar a Deus desde Adão que teve medo de Deus porque pecou. E surge a pergunta: isso tem que continuar?

Segundo tema: a Terra Prometida, onde corre leite e mel. Onde está essa terra? Leite e mel querem dizer um lugar de fartura, de doce, de delícia, de coisa próspera, coisa boa. Mas não teve descanso nenhum na Terra Prometida, apenas guerras. Então esse assunto também fica em aberto.

O terceiro tema: o reino sem fim de Davi prometido por Deus. Mas onde está esse reino? Acabou?

E o quarto tema é a expectativa de um Messias contra os estrangeiros dominadores, da vinda de alguém para encerrar o domínio estrangeiro.

Todas essas questões deixadas em aberto no Antigo Testamento se resolvem no Novo Testamento.

NOVO TESTAMENTO

Após passarmos, em nossa linha do tempo, por Abraão, por Moisés, pelo tempo dos juízes, por Davi e pelo exílio, agora chegamos a Jesus.

Todo o Novo Testamento pode ser resumido em algumas frases, e a primeira frase é aquela dita por João Batista ao ver Jesus:

“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.

Essa é uma frase muito bonita, que sempre falamos nas missas.

Mas por que João Batista disse essa frase? Porque João Batista estava resolvendo o primeiro assunto que ficou em aberto do Antigo Testamento, sobre a realização de sacrifícios para agradar a Deus.

A grande boa notícia do Novo Testamento é dizer a você que não há ira alguma para cair sobre a sua cabeça e que você não tem que fazer sacrifícios de animais, de dinheiro ou do que quer que seja para agradar a Deus.

Quando João Batista traz essa frase, ele está nos dizendo:

Não somos nós que oferecemos cordeiros para Deus, é Deus quem oferece o cordeiro para nós. Não somos nós que temos que fazer sacrifícios para agradar a Deus, é Deus quem se sacrifica para estar conosco. A verdadeira religião não é da gente para Ele, é dele para nós.

Com isso, João Batista vira de ponta cabeça a ideia dos sacrifícios que o Antigo Testamento trazia e diz que é Deus quem envia o seu Cordeiro para nós, que o maior sacrifício já foi feito. Isso já é para nos encher de paz, porque se andamos com medo de castigos de Deus, estamos andando como Adão quando pecou, teve medo e se escondeu de Deus.

A grande boa notícia do Evangelho é que Deus nos perdoou em Cristo e quer estar conosco, e que para isso ele se sacrifica, ele morre, porque ele quer nos perdoar.

A próxima frase vem do próprio Jesus, que diz:

“Vinde a mim todos os que estais cansados sobre o peso de vosso fardo e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas”.

A segunda boa notícia do Evangelho, do Novo Testamento, tem relação com o segundo ponto que ficou em aberto no Antigo Testamento: a Terra Prometida. Eles nunca encontraram essa terra, onde corre leite e mel, porque sempre estiveram no meio de guerras, como estão até hoje.

O que o Novo Testamento vem nos dizer é que em Jesus eu tenho descanso! Em Jesus eu alivio o meu cansaço, Ele é a minha terra prometida.

A terra prometida no Antigo Testamento não é um pedaço de terra que eu tenho que ficar me matando por ele. A terra prometida é Jesus, porque é nele que eu tenho descanso, é nele que eu tenho paz. Então o Novo Testamento, assim, resolve esse problema do Antigo.

Quanto ao reino sem fim, o terceiro ponto que ficou em aberto no Antigo Testamento, isso também se relaciona diretamente com Jesus. Os cegos gritaram para Jesus:

“Jesus, filho de Davi, tende piedade de mim”.

Jesus, filho de Davi. Mas por que Ele é chamado de filho de Davi, se Davi viveu mil anos antes de Jesus?

Porque Jesus é aquele que vai ter o seu reino sem fim. Deus não tinha prometido para Davi que ele teria um reino sem fim? Isso se cumpre em Jesus. Jesus tem o reino sem fim, sendo Jesus o herdeiro desse reino eterno, o Rei dos reis.

E onde está esse reino? O próprio Jesus a isso responde, dizendo a Pilatos: “o meu reino não é deste mundo”.

Essa frase de Jesus resolve outro problema do Antigo Testamento, que era a expectativa de um Messias contra os dominadores estrangeiros. Quando se viram dominados por babilônicos, por egípcios, por sírios, por persas, gregos e romanos, ansiavam por um Messias para salvá-los.

Mas Jesus não era esse Messias político, poderoso e que destrói, mas eu o Messias que perdoa, que ama, que abençoa, que ajuda a caminhar, que resgata aquele que está caído.

“O meu reino, sem fim, não é deste mundo”.

Então Jesus se apresenta como um Messias, diferente do que eles esperavam no Antigo Testamento, mas um Messias que nos traz a vida eterna, não uma briga de poder terrena.

Com esse sobrevoo, temos um conhecimento geral do caminho a ser percorrido e já é possível adentrar um pouco mais profundamente nos textos da Bíblia, estando prontos para observar os detalhes, morros, prados e desertos presentes nessa jornada.

CAPÍTULO 4 – POR ONDE COMEÇAR A LEITURA DA BÍBLIA?

Já dissemos que se deve conhecer o todo, numa visão geral, mas o estudo da Bíblia não deve seguir a mesma dinâmica da leitura ou do estudo de um livro comum. A Bíblia não é um livro que você começa do começo e vai lendo até o fim.

É claro que você pode fazer isso, mas a Bíblia tem um ponto certo por onde começar a leitura, e é também isso que pretendo demonstrar neste capítulo.

Porém, antes disso, vamos falar um pouco sobre o processo de escrita dos livros que compõem a Bíblia. Entendemos que os textos bíblicos, as palavras ali escritas, são fruto da inspiração divina. Mas o que é inspiração divina?

É necessário se atentar que inspiração divina não é o mesmo que ditado Divino. Inspiração divina não significa dizer que Deus ditou no ouvido do escritor bíblico aquilo que foi escrito, e nem uma lavagem cerebral, onde o escritor não sabia de nada e com um toque mágico de Deus passa a ter todo o conhecimento que depois passou para o papel. Não é isso.

Inspiração divina não é escrita do além. A Bíblia não foi escrita dessa forma, e sim por escrita por pessoas comuns, que iam aprendendo com a vida, com as experiências que viviam, e que resolveram escrever essas experiências para as outras pessoas ou para as próximas gerações.

Vou dar um exemplo: O livro de Números, capítulo 21, faz referência ao Livro das Guerras do Senhor, que não está na Bíblia, o que é um sinal claro de que a pessoas que estava escrevendo Números 21 possui um conhecimento vindo de um outro texto. Significa que quem escreveu esse livro aprendeu coisas lendo, assim como eu ou você.

Da mesma maneira que aquilo que expresso nessas palavras não veio de um lugar mágico, de um conhecimento que simplesmente baixou em mim, os autores da Bíblia também estudavam, aprendiam e meditavam sobre aquilo que colocavam nos textos.

Os autores bíblicos escreveram coisas que eles aprenderam, que eles pesquisaram, que eles leram, que eles experimentaram, que eles vivenciaram.

Olha um outro exemplo. No livro de Samuel, ordenou-se que fosse ensinado aos Judaítas como está escrito no livro do Justo. Ou seja, Samuel é um livro que está na Bíblia, enquanto que o livro do Justo não está na Bíblia. Então, quem escreveu a Bíblia, em Samuel, leu um outro livro que não era bíblico e se inspirou nesse livro, aprendeu desse livro e o citou na Bíblia.

São mais de 25 livros citados na Bíblia que não estão na Bíblia. Isso significa que os autores bíblicos também liam outras coisas, também aprendiam outras coisas, também viam as coisas da vida, desenvolviam o seu conhecimento como nós desenvolvemos atualmente.

Então não fique pensando que a inspiração divina é uma mágica que acontece. Não é. Acontecia o que acontece conosco: aprendemos, experimentamos, entendemos e depois transmitimos.

Um outro exemplo é Paulo. Ele escreveu muitas cartas, mas ele não tinha nenhum ritual para escrever, mas sim trabalhava duro durante o dia inteiro e à noite sentava e escrevia, respondendo às perguntas das pessoas e das comunidades que ele atendia.

Então, Paulo escreveu aos Romanos, escreveu aos Coríntios, escreveu aos Gálatas e a outros respondendo perguntas. Não tinha nenhum ritual, nenhuma mágica, nada. Ele foi compreendendo o Evangelho e respondia às perguntas dessas pessoas.

Podemos citar ainda o apóstolo Mateus, uma pessoa que entendia de números e contas. Ele era cobrador de impostos. Não é à toa que, no Evangelho de Mateus, existam mais parábolas de Jesus falando de números, de juros, de bancos, porque Mateus conhecia e entendia disso, e por essa razão escrevia mais sobre aquilo que Jesus trazia relacionado a números.

Também aconteceu alguma coisa parecida com Lucas. Lucas, que escreveu os Atos dos Apóstolos, era médico, e como médico tinha uma visão de médico das coisas. Só no Evangelho de Lucas há o relato de Jesus suando sangue no Jardim das Oliveiras. Só Lucas conta isso. Por quê?

Porque Lucas era médico, e isso chamou a atenção dele, porque Lucas sabia que suar sangue isso é um problema médico, e o nome disso é hematidrose. Ocorre quando alguém está sob profundo estresse, como Jesus estava. Os poros se dilatam e o sangue mina na pele.

É algo altamente doloroso, e Lucas sabia disso. Por isso Lucas registra isso no Evangelho dele, porque sabia a dor e o estado de sacrifício pelo qual Jesus passava, e isso se tornou relevante dentro de seus conhecimentos técnicos para compreender o que via e descrever isso do seu próprio modo.

Já Amós, um profeta do Antigo Testamento, era boiadeiro. Por isso você vai encontrar no texto de Amós citações sobre bois e pastos, porque era o mundo dele, era o que ele entendia.

Inspiração divina é: de onde você estiver,

olhar em tudo, a mão de Deus.

Não interessa se você é boiadeiro, se você é médico, se você é cobrador de impostos. Não interessa o que você faz na vida, se você é costureiro, se você é dona de casa, se você é faxineiro, se você é motorista de ônibus. O que interessa é, do seu ponto de vista, do seu jeito, da sua maneira, enxergar a mão de Deus em tudo. Enxergar a mão de Deus por trás das coisas.

Isso é ter inspiração divina, e era isso que acontecia com os autores bíblicos.

Você deve conhecer pessoas que nunca leram a Bíblia, mas que têm inspiração divina em suas palavras ou mesmo ações. Na humildade delas, na simplicidade delas, elas conseguem olhar a mão de Deus por trás de tudo. Por trás da dificuldade, por trás das glórias, das riquezas, das pobrezas, das misérias, dos sucessos. Elas enxergam a mão de Deus agindo sempre. Quem faz isso é inspirado por Deus.

Então quem disse que a Bíblia é a palavra de Deus? Quem falou isso? Por mais que alguns neguem, está na Bíblia, em uma das cartas de Paulo, que toda escritura é inspirada por Deus.

Agora, quem disse que o conjunto todo de textos, que esse conjunto inteiro de textos da Bíblia, é a palavra de Deus? Foi o Papa Damásio I, num concílio, uma reunião de bispos, realizada em Roma no ano 382, quando ele apresentou todos os livros que iam compor a Bíblia como sendo a palavra de Deus.

A Bíblia, portanto, é um livro Católico. Foi um papa quem definiu que o Antigo Testamento ficaria e foi um papa que definiu os livros que comporiam o Novo Testamento.

Assim quando percebemos que o Novo Testamento é igual, tanto na Bíblia Católica quanto na Bíblia Protestante, estamos vendo que, na verdade, também os Protestantes reconheceram a autoridade do Papa referente aos textos Bíblicos, porque foi o Papa quem os escolheu e organizou. Foi o papa quem definiu os livros do Novo Testamento.

Então a Bíblia é um livro Católico por natureza. É uma vergonha para os Católicos quando os Protestantes andam de cima para baixo com a Bíblia debaixo do braço, enquanto os Católicos não têm a Bíblia como livro de leitura, não a entendem, não leem, não compreendem nada.

Mas então surge a pergunta: considerando as mais diversas traduções da Bíblia, qual seria a melhor para se ter?

Para uso no dia a dia, eu recomendo a Bíblia Ave Maria, que tem uma boa tradução para o dia a dia, e a Bíblia da CNBB, a Bíblia da Conferência Episcopal dos Bispos do Brasil.

Agora, se você quiser uma Bíblia para estudos mais profundos, tem a Ave Maria de Estudos e tem a Bíblia de Jerusalém, sendo essa a mais indicada para estudos, porque vem com notas de rodapé bastante técnicas e aprofundadas.

É relevante entender que Antigo Testamento foi escrito em duas línguas, uma maior parte em hebraico, e uma menor parte de em Grego10, e que o Novo Testamento foi escrito em grego. Então, o que lemos é uma tradução da Bíblia para o português e, como uma tradução, teremos umas melhores do que as outras, algumas mais fáceis e outras mais difíceis.

A tradução pode ainda acarretar algumas confusões ou mesmo possuir aprimoramentos, não necessariamente daquilo que está sendo traduzido, mas da capacidade dos leitores de compreenderem o sentido das palavras, porque estes sentidos vão se alterando ao longo do tempo e segundo a cultura também.

Para exemplificar melhor, Gênesis 6.14, que foi escrito originalmente em Hebraico, uma língua que se lê da direita para a esquerda, é representado assim:

O que está escrito em Gênesis 6.14, numa tradução ao pé da letra para o português, ou seja, palavra por palavra, temos:

Faze para ti uma arca de árvores de gofer.

Ninhos fazes com a arca.

E tu a encobres da casa à rua com betume.

Trata-se de um texto sobre a construção da Arca de Noé, mas nessa tradução, considerando a forma como falamos o português hoje, quase não dá para entender o que está escrito.

Perceba que não dá para fazer traduções ao pé da letra, porque o texto fica muito difícil. Por isso os tradutores fazem uma adaptação no texto, para que fique mais compreensível em nossa língua. Veja então a tradução da Bíblia Ave Maria para Gênesis 6.14:

Faze para ti uma arca de madeira resinosa:

divide-a em compartimentos

e untarás com betume por dentro e por fora.

Faze para ti uma arca de madeira resinosa. A primeira frase, que seria no original “faze para ti uma arca de árvores de gofer“, aqui foi substituída pela característica mais marcante daquela árvore, resinosa, porque se aproveita assim o sentido, mesmo que o leitor nunca tenha visto uma árvore de gofer.

A segunda frase “Ninhos fazes com a arca”. A tradução da Ave Maria colocou “divide-a em compartimentos“, trazendo um melhor entendimento.

E na terceira frase, na tradução ao pé da letra: “E tu a encobres da casa à rua com betume”11. O que é isso? Encobres da casa à rua. Trata-se de uma gíria. É um jeito de falar do hebraico que em português significa: “E untarás com betume por dentro e por fora“.

Ou seja, no hebraico, da casa à rua quer dizer por dentro e por fora. Mas ao se traduzir ao pé da letra, nós, brasileiros, não vamos entender.

Então os tradutores precisam fazer ajustes no texto, e por isso tem várias Bíblias diferentes, porque cada tradutor, cada editora, procura dar o ajuste que considera melhor.

A questão é que não haverá uma tradução perfeita, por melhor que seja, afinal a tradução de nenhum texto escrita em outra língua, será perfeita. Então é importante, para um estudo aprofundado, ter acesso a diversas traduções, porque cada tradução pode complementar a outra quanto ao sentido da palavra original, de uma frase ou de um simbolismo.

Agora, de todas traduções, existe uma que é mais perigosa: a Bíblia Tradução do Novo Mundo, que é a Bíblia das Testemunhas de Jeová.

Curiosamente, nessa tradução, algumas passagens estão traduzidas melhor do que algumas Bíblias Católicas, mas tem muitos erros de tradução e até mesmo alguns erros cometidos de forma proposital, ou seja, que não são erros, mas sim interpretações que pretendem dar forma diferente ao que originalmente foi transmitido.

As testemunhas de Jeová têm uma doutrina bem diferente das outras Igrejas cristãs, e dessa maneira, a tradução foi feita de forma a se encaixar na doutrina deles, mexendo em algumas partes do texto para que se relacionem com a doutrina que eles pregam. Então vão haver partes da Bíblia deles que existem ali, não estando presentes em nenhuma.

Sabendo disso tudo, voltamos à pergunta que inaugurou esse capítulo: por onde começar a ler a Bíblia?

Vejamos, a Bíblia Católica tem 73 livrinhos. Desses 73 livrinhos, 46 estão no Antigo Testamento e 27 estão no Novo. No total, a Bíblia tem 35.527 versículos e 1.334 capítulos. Essa é a Bíblia Católica.

Devemos começar os estudos pelo coração da Bíblia, que são os Evangelhos, como definido pelo Catecismo da Igreja Católica no parágrafo 125. Então deve-se começar a leitura da Bíblia por Mateus, Marcos, Lucas e João.

Dentro dos quatro evangelhos, a parte mais importante é o Sermão da Montanha, presente no livro de Mateus nos capítulos 5, 6 e 7.

Então, devemos começar a leitura da Bíblia pelo Sermão da Montanha, e a partir dali todo o resto vai se abrir na sua cabeça. Nesses três capítulos, Mateus resumiu todo o ensino de Cristo, tudo o que é mais importante, é o coração da Bíblia.

São três capítulos de leitura muito simples, e leva cerca de 20 minutos para ser feita. Sugiro que se faça, em uma hora, ao menos três leituras, e seja ela feita com intervalos no mesmo dia ou em dias distintos, mas oriento que se leia o Sermão da Montanha por três vezes.

Ao terminar essas três primeiras leituras, prossiga para todos os quatro evangelhos e posteriormente pelos outros livros do Novo Testamento, mas é importante seguir a ordem em que foram escritos, e não a ordem que está no Novo Testamento.

Essa ordem é a seguinte:

O primeiro evangelho escrito foi Marcos, com 16 capítulos. O segundo evangelho a ser escrito foi Mateus, que ampliou o evangelho de Marcos, colocando também a infância de Jesus, o Sermão da Montanha, e mais algumas parábolas. Então, o evangelho de Mateus é o Marcos ampliado.

Marcos tem 16 capítulos. Mateus tem 28. Depois, deve-se ler, terceiro lugar, o evangelho de João, que, de todos os evangelhos, é o mais diferente, porque ele foi escrito por João já bem idoso, na casa dos 70 anos de prática de evangelho. São 21 capítulos.

O livro de Lucas deve ser deixado por último, posto que ele escreveu dois textos, o evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos, que devem ser lidos um na sequência do outro.

Como próximo passo, recomendo a leitura de uma carta bem pequena que está no fim do Novo Testamento, com cinco capítulos: a primeira carta de João. Pode-se dizer que essa carta é um resumo do que é viver o evangelho, resumindo o amor de Deus por nós e a prática do amor para com o próximo.

Agora vamos para o quarto passo, em que você vai ler as cartas de Paulo.

Novamente, não se deve seguir a leitura das cartas de Paulo na ordem que está na Bíblia, pois lá estão ordenadas da maior para a menor e não na ordem em que Paulo as escreveu.

Então, para que se tenha uma noção mais aprimorada do ensino de Paulo, siga a seguinte ordem: primeira e segunda Tessalonicenses; primeira e segunda Gálatas; Coríntios; Romanos; Efésios; Colossenses; Filipenses; Filemon; 1º Timóteo; Tito; 2º Timóteo e Hebreus. Essa é a ordem cronológica das cartas de Paulo, a ordem em que foram escritas.

Aí vem o quinto passo, que compreende a leitura do restante do Novo Testamento: Carta de Tiago, a 2ª e a 3ª carta de João, a 1ª e a 2ª carta de Pedro, a carta de Judas e o Apocalipse.

Nesses cinco passos, nós lemos com entendimento o Novo Testamento, e podemos seguir com a leitura do Antigo Testamento, que pode ser seguida na ordem que está na Bíblia, começando por Gênesis, da primeira página, até a última página de Malaquias.

Mas por que ler primeiro o Novo Testamento? E por que ler o Evangelho primeiro? Porque esses textos trazem a base necessária para se entender a Bíblia, e quem dá essa base é Jesus.

Não basta ler a Bíblia, é preciso lê-la com certo entendimento, sabendo o que está por detrás daquele texto. Devemos saber quem escreveu, quando escreveu e porque escreveu, qual era a situação da época, quais eram os costumes da época, o que eles faziam, qual era a prática religiosa deles, qual era a política deles, como é que funcionava a cidade deles.

Só ler a Bíblia sem ter esse conhecimento não será suficiente para que você compreenda o que está lendo, pois a leitura do texto bíblico não é mágica. De nada adianta pegar a Bíblia, abrir, apontar um texto e ler de qualquer maneira, de qualquer lugar, porque você não vamos entender nada. Não é assim que se lê Bíblia.

A igreja Católica não recomenda fazer da Bíblia um livro mágico, um livro de superstições, em que eu abro e magicamente recebo uma mensagem de Deus, falando diretamente comigo. Um padre precisa estudar por oito anos antes de se tornar padre. Se bastasse abrir Bíblia, essa dedicação e estudo não seriam necessárias. A igreja Católica não é uma religião de superstições.

Tem que ter estudo, tem que ter conhecimento, conhecer o contexto, a situação, a história, senão não há entendimento. Vamos ver alguns exemplos.

Veja o que Mateus 18, 20 diz:

Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, lá estarei.

Você lê essa frase solta e acha que entendeu. Mas o que você entende? Que se a gente fizer uma reunião de oração, com duas ou três pessoas reunidas em nome de Jesus, Jesus está presente, certo?

Está certo, não está errado. Jesus está presente. Só que se lermos todo o capítulo 18 de Mateus, não apenas esse versículo, veremos que Jesus não está falando de reunião de oração, mas que Ele está falando de perdão.

O capítulo 18 de Mateus é um capítulo sobre perdoar e compreender o irmão, e no meio disso Jesus diz “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome”, mas em qual sentido? Onde dois ou três estiverem se compreendendo, onde dois ou três estiverem entrando em acordo, onde dois ou três estiverem com compreensão mútua, eu estarei no meio deles.

Então o texto não sobre reunião de oração. O texto é sobre Cristo estar presente onde quer que dois ou três estiverem se perdoando, seja no meio da rua, seja na feira, seja no comércio, seja na igreja, seja em casa, seja no clube, não interessa onde. A presença de Jesus se dá onde existem pessoas se perdoando.

Se você não ler todo o contexto, se você não entender tudo o que está em volta e ficar preso num único versículo, você não entende a verdadeira mensagem. Então não basta ler Bíblia, não basta ler um versículo, você tem que ler a sequência do texto todo.

Outro exemplo está em João 19, de 28 a 29. Essa passagem diz que, quando Jesus estava na cruz, o soldado pegou uma esponja com vinagre e passou na boca dele com uma vara. Acabamos nos questionando o porquê de haver vinagre no Calvário, e aqui está a importância de conhecer os costumes.

Os soldados romanos eram os responsáveis pela crucificação, pois naquele período eram os únicos que poderiam executar a pena capital, e os romanos tinham acesso a banheiros públicos, compostos por um sanitário onde faziam suas necessidades, e para se limpar, utilizavam uma esponja que ficava dentro de um balde com vinagre.

Após usar a esponja, todos que usavam o “banheiro” a colocavam novamente nesse balde com vinagre. Foi uma dessas esponjas, de banheiro público, já usada, que o soldado levou à boca de Jesus.

Com esse entendimento do contexto, o episódio ficou ainda mais chocante.

Já em Mateus 3,4, diz-se que João Batista se alimentava de gafanhotos. João Batista era vegetariano, e dizer que ele se alimentava de gafanhoto chama a atenção, mas nesse caso, não estavam falando de insetos, mas sim de era um legume, o fruto da alfarrobeira12, que até hoje pode ser encontrada na a região do Rio Jordão, do deserto da Judéia. Lá a vendem com o nome de pão de São João, pois era o que João Batista comia.

Por fim, em Marcos 14,30 Jesus diz para Pedro: “antes que o galo cante três vezes, tu me terás negado”. Ou seja, Pedro, quando o negou, o galo cantou. Daí imaginamos um galo cantando, mas existia uma lei em Jerusalém que proibia a criação de galos e galinhas, pois os judeus consideravam esses animais impuros, assim como os porcos.

Então Jesus se referia a quê?

O galo que canta quando Pedro nega a Jesus é a corneta do soldado romano que vigiava a cidade. À noite, a corneta do soldado romano tocava três vezes para avisar que a cidade estava sendo vigiada. Então, Jesus disse o seguinte: “antes que essa noite termine, antes que o soldado avise, por três vezes, que está vigiando a cidade, você já vai ter me negado, Pedro”.

São esses detalhes que vão enriquecendo a leitura da Bíblia, e é preciso ter uma leitura maior do que apenas da Bíblia para um estudo mais completo.

Vou deixar então algumas sugestões de livros.

Os primeiros livros são de um monge beneditino, do Mosteiro de São Bento do Rio. Os livros são Para Entender o Antigo Testamento e Páginas Difíceis do Evangelho, de Dom Estêvão Bittencourt, que foi meu professor e hoje já é falecido.

Recomendo ainda mais um livro, As Parábolas de Lucas, de Kenneth Bailey, e A História dos Hebreus, de Flávio Joséfo que, tendo sido preso pelos Romanos, propôs, em troca da liberdade, escrever toda a história dos judeus.

Os Romanos eram fascinados por história, porque era um dos mecanismos de controle sobre os outros povos, conhecer a história, então aceitaram sua proposta e assim ele produziu essa obra, que é bem maior que a Bíblia e hoje é uma das maiores fontes sobre a história do povo Judeu.

CAPÍTULO 5 – LENDO A BÍBLIA COMO VOCÊ NUNCA LEU

Ler a Bíblia como nunca leu antes. Esse é o nosso objetivo nesse capítulo, e você já deve estar se perguntando: como isso é possível?

Bom, esse título se trata mais de um chamamento, de uma provocação para chamar sua atenção para um modo de leitura diferente da Bíblia, uma percepção diferente daquela que estamos acostumados, começando pela forma como vemos os diferentes livros que compõem a Bíblia.

Vamos ver esse esquema do Antigo Testamento:

Imagine que isso seja um portal pelo qual você vai passar por debaixo. Pois bem, esse portal é o Antigo Testamento. Nesse portal encontramos cinco números, 5, 7, 5, 16 e 13, que somados atingem 46. Estes são todos os livros do Antigo Testamento.

O nosso portal está dividido em 3 colunas (A, B e C). Na coluna A, temos os livros que contam a história do povo do Antigo Testamento, com os cinco livros do Pentateuco e mais os livros históricos, todos os livros que contam a história do povo.

Na coluna B, temos os livros que contam os sentimentos das pessoas que passaram por essa história, o que elas sentiam e o que elas experimentavam. São os livros sapienciais.

E, por fim, na coluna C, temos o sermão que foi pregado as pessoas que participaram dessas histórias e que tinham seus sentimentos, que são os livros proféticos. Então, se dividirmos os livros do Antigo Testamento, teremos:

Então temos aqui a divisão esquemática do Antigo Testamento em:

A história do Antigo Testamento;

O sentimento do Antigo Testamento; e,

Os sermões do Antigo Testamento.

O mesmo tipo de esquema pode ser aplicado ao Novo Testamento, que aqui não se parecerão com um portal, mas com um formato de Cruz. Ao passarmos pelo portal do Antigo Testamento, chegamos à Cruz do Novo Testamento.

Nessa Cruz podemos visualizar os números. 4, 1, 14, 7 e 1, que são os 27 livros do Novo Testamento.

De um lado da cruz, nós temos a Boa Nova, que são os 4 evangelhos. Do outro lado da cruz, temos a Igreja, com o livro de Atos dos Apóstolos. Então, nos braços da cruz, nós temos os quatro Evangelhos e Atos dos Apóstolos, que é o início da Igreja.

Já no meio da Cruz temos os sermões, que foram pregados às pessoas que receberam a Boa Nova e que estão na Igreja, as cartas e o Apocalipse.

O SAGRADO E O SANTO

Qual é a diferença entre sagrado e santo? O que é algo sagrado? O que é algo Santo? Acho que muitos já se fizeram essa pergunta.

Bom, sagrado é tudo aquilo que o homem faz para Deus. Quando o homem vai construir um templo, por exemplo, ele escolhe o terreno, compra o material e constrói o prédio. Ao final, ele diz: “Esse prédio é sagrado. A partir de agora, ele será uma igreja”. Sagrado é tudo aquilo que o homem que faz para Deus, assim como os objetos litúrgicos da missa, o cálice, a patena, o cibório.

Mas então, o que é santo?

Santo é aquilo que Deus faz para Ele mesmo, é o que Deus faz para Deus. Quando alguém é chamado à santidade, é porque Deus o para Ele.

E por que estou chamando a atenção sobre isso? Porque na capa da Bíblia está escrito “Bíblia Sagrada”, e se ela é sagrada, é algo que o homem faz para Deus. Então entenda o seguinte: A Bíblia é um livro que o homem escreveu. A Bíblia é um livro que o homem fez. A Bíblia é um livro onde o homem registrou aquilo que ele podia registrar, vindo da experiência e do entendimento dele.

Mas foi o homem ou um conjunto de homens que pegou uma pena, um graveto ou um carvão e gravou palavras num papiro, na argila ou na tabuinha. E quando o homem escreveu aquelas palavras, ele cometeu falhas na escrita, erros, atropelos, e até falta de entendimento.

Então tudo isso está presente na Bíblia: erros, falhas, atropelos, falta de entendimento, porque é um livro que o homem escreveu através de uma linguagem humana.

Deus se manifesta na Bíblia numa linguagem humana, e na linguagem humana existem falhas, erros e falta de entendimento. Quer ver um exemplo?

Nós separamos os livros da Bíblia no Pentateuco, que são os cinco primeiros, os livros Históricos, Sapienciais e Proféticos, e por último, o Novo Testamento.

Quando começamos a ler o Pentateuco, vemos um Deus raivoso e punitivo, e ao chegarmos nos livros Históricos, descobrimos um Deus que manda matar, que manda invadir e guerrear. Já nos textos Sapienciais, encontramos um Deus mais compreensivo. Já na leitura dos Profetas, há Deus mais pacífico, e no Novo Testamento, se descobre um Deus que é amor.

Então, se observarmos bem, a Bíblia vai falando de Deus de formas diferentes. Muitas vezes parece que não se trata do mesmo Deus, porque aquele que mandava matar sem piedade se torna amor, misericórdia e perdão.

Mas Deus não muda. O homem é quem mudou.

Com o passar do tempo, a mentalidade humana foi mudando e o ser humano foi compreendendo quem é Deus, e a Bíblia mostra não como Deus vai mudando, mas como o homem vai entendendo melhor quem é Deus. O que vai se modificando é a maneira pela qual a humanidade vai conseguindo compreender Deus, da mesma forma que um filho passa a compreender o Pai.

A Bíblia traz, portanto, a história da evolução do pensamento humano sobre Deus, e podemos notar claramente essas fases de desenvolvimento, até que chegamos à revelação final, que é Jesus, que mostra para nós a verdadeira face de Deus.

Então, como entender isso? Como separar aquilo que é de Deus e aquilo que é fruto do entendimento humano?

Bom, temos uma regra para conseguirmos essa compreensão: Jesus. Por isso digo que devemos ler o Novo Testamento primeiro, começando pelo Evangelho, para assim entender a mensagem de Jesus e, a partir dela conseguir ler a Bíblia e separar o que serve e o que não serve.

Através de Jesus você conseguirá separar, no texto e nas histórias Bíblicas, aquilo que é de Deus e o que é apenas uma expressão do pensamento humano, dos sentimentos de quem escreveu aquelas palavras.

Vamos então comparar alguns textos do Antigo Testamento com textos do Novo Testamento para compreendermos melhor essa questão.

Deuteronômio 28, de 23 a 24, diz:

O céu que está por cima da tua cabeça será de bronze, e o solo será de ferro sob os teus pés. Em lugar da chuva, necessária à tua terra, o senhor te dará pó e areia, que cairão do céu sobre ti até que pereças.

O capítulo 28 de Deuteronômio tem 53 versículos de maldições, e essa é uma dessas maldições.

Agora, imagine o agricultor que trabalha com lavouras e precisa do solo fértil e irrigado, o que ele estará sentindo ao ler isso? É o texto Bíblico dizendo para ele que Deus vai mandar pó e areia sobre a terra dele, sobre a plantação dele, ao invés de mandar chuva, ao invés de mandar prosperidade, porque ele é pecador.

Aprenda que todos aqueles que querem usar a Bíblia para controlar as pessoas, que querem colocar medo nas pessoas e as manipular, vão usar textos do Antigo Testamento dessa forma. Temos de ter atenção para não cair em conversas desse tipo.

Mas então, olhemos para o que Jesus disse em Mateus 5,45:

Deste modo sereis os filhos de vosso pai do céu, pois ele faz nas­cer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos.

O que Jesus fez? Jesus corrigiu Deuteronômio. Jesus diz, em outras palavras: Não, o Pai nunca vai mandar pó sobre a lavoura de ninguém. Do Pai não vem castigo nenhum, do Pai não vem maldição nenhuma. Ele trata todos com bondade, porque ele é bom, porque ele é generoso, e ele faz chover sobre os justos e até injustos. Ele cuida de todos. Jesus está corrigindo a mentalidade do Antigo Testamento.

Vamos comparar mais uma dessas passagens através do Salmo 138, que diz em seus versículos 21 e 22:

Pois não hei de odiar, senhor, aos que vos odeiam? Aos que se levantam contra vós, não hei de abominá-los? Eu os odeio com ódio mortal, eu os tenho em conta de meus próprios inimigos.

Davi, no Salmo 138, afirma que possui o direito de odiar, que tem o direito de odiar com ódio mortal, de matar aqueles que são inimigos de Deus, aqueles que não são da sua religião. Todos os que que tem ódio ao outro em razão de sua religião está se apoiado no Salmo 138, como aquelas pessoas que entram numa Igreja Católica e destroem imagens, se acham no direito de odiar.

Olhe então o que Mateus 5,43-44 diz:

Tendes ouvido o que foi dito: amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem.

Leia comigo: “Tendes ouvido o que foi dito? Amarás teu próximo e poderás odiar teu inimigo“. Isso foi o que disse Davi, no Salmo 138. Agora Jesus está corrigindo essa informação e dizendo: Eu, porém, vos digo.

Perceba que há a intenção clara de reformar aquele entendimento, expresso pela palavra “porém”, ou seja, Jesus estava corrigindo o Salmo 138: Eu, porém, vos digo. Amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem.

Ele diz: “ora, Davi te deu o direito de odiar, mas eu te digo, você não tem o direito de odiar ninguém”.

Já em Eclesiastes 9, de 4 a 5, cuja autoria é atribuída ao filho de Davi, Salomão, temos:

Com efeito, os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos de nada sabem. Para eles não há mais recompensa, porque sua lembrança jaz no esquecimento.

O que Eclesiastes 9,5 do Antigo Testamento está dizendo? Que para quem morreu, acabou. Não há nada depois da morte, nem vida eterna, nem céu, nem nada. Acabou.

Mas será que é isso? Não de acordo com Jesus em Lucas 23,43:

Jesus respondeu-lhe: “em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso”.

É Jesus corrigindo o Eclesiastes, corrigindo o entendimento de Salomão e afirmando haver a possibilidade de uma vida eterna no Reino do Céu, ou seja, no paraíso prometido.

Outro exemplo podemos encontrar em Salmos 36,25:

Fui jovem e já sou velho, mas jamais vi o justo abandonado, nem seus filhos a mendigar o pão.

O que está sendo dito aqui? Que o mendigo é mendigo porque Deus o abandonou. Alguém se torna mendigo porque ele não é justo, porque é pecador e está pagando pelo que fez. Quantas Igrejas e quantos “Crentes” vemos por aí, nos dias de hoje, afirmando a mesma coisa?

É com base nesse tipo de entendimento que pastores pregam que uma pessoa vai se tornar milionária, que Deus vai lhes abençoar com carros, casas e tudo de melhor em aspectos materiais, uma vez que esse Salmo diz, categoricamente, que quem é pobre não é abençoado.

Mas então vem Jesus, o Mestre, e corrige a informação em Lucas 16,19-20:

Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho finíssimo, e que todos os dias se banqueteava e se regalava. Havia também um mendigo, por nome Lázaro, todo coberto de chagas, que estava deitado à porta do rico.

Jesus coloca dois personagens na parábola. O rico e o pobre mendigo. O rico, pelo Salmo 36, é um abençoado por Deus, enquanto o mendigo, é um amaldiçoado. Só que Jesus conta a história de modo que a coisa se inverte, porque o rico morre e vai para o inferno e o pobre morre e vai para o céu.

Então podemos dizer que ser pobre é ser abençoado? Não é isso que trata a parábola. É justamente a reafirmação de que o reino de Jesus, que a terra prometida, não são de coisas materiais, não é deste mundo, lembra?

Não é quanto você tem no banco que mostra a sua benção, é o seu caráter, quem você é por dentro. Você pode ser rico e pode ser pobre, pode ser miserável ou pode ser bilionário. O seu caráter é que mostra a benção de Deus na sua vida. É quem você é.

Então, vamos repetir essa frase. Leia em voz alta:

SEM JESUS, A BÍBLIA É UM PERIGO.

E sabe por que a Bíblia é um perigo sem Jesus? Porque sem Jesus, se eu tirarmos o evangelho da Bíblia, a Bíblia se torna um livro perigoso. Vingança, maldade, discriminação, julgamento, guerra e ódio. Deuteronômio disse que Deus vai destruir a lavoura do pecador, e o Salmo 138 ensina a odiar.

Então, sem Jesus, a Bíblia é um livro perigoso. Por isso você tem que entender primeiro o Evangelho para depois entender o restante da Bíblia com uma real compreensão.

Vamos olha para essa cena, descrita em Lucas 9: Jesus leva três apóstolos, Pedro, Tiago e João, para o alto de um monte. E lá Jesus se transfigura. Ou seja, Jesus mostra sua glória para eles, seu poder. Fica brilhante. Ao lado de Jesus aparecem dois personagens, Moisés e Elias.

Lembremos que Moisés é o homem que escrevia as leis, aquele que condenava em nome de Deus, e Elias, que aparece do outro lado na transfiguração, é o homem que era profeta de Deus, que matava em nome de Deus. Matou mais de 700 pessoas.

Elias era o homem que matava em nome de Deus. Moisés era o que condenava em nome de Deus.

Surge então uma nuvem e dela ressoa uma voz: “Este é o meu filho muito amado. Ouvi-o”, e nesse momento, Jesus estava sozinho. Não mais se via Moisés ou Elias, apenas Jesus.

É como se dissesse: não é mais Moisés, não é mais Elias, mas sim Jesus.

É preciso entender Jesus, entender o que ele ensinou, ter o Sermão da Montanha na ponta da língua, e só assim entenderemos o que vem de Deus e o que era apenas entendimento da linguagem humana.

Só fica na Escritura o que se relaciona aos ensinamentos de Jesus. Só deve interessar para prática cristã aquilo que tem relação com o que Jesus ensinou, e aquilo que não tiver, devemos ler como história de homens não tinham o Evangelho para os guiar.

O Antigo Testamento traz muita coisa ultrapassada que precisamos filtrar, da mesma forma que se pode retirar de lá muitas passagens que se relacionam com Jesus. É por isso que o Antigo Testamento não pode ser desconsiderado.

É como diz o catecismo da Igreja Católica: os Evangelhos são o coração de todas as Escrituras. Não basta saber se algo está ou não na Bíblia, mas sim se está em Jesus. Entenda isso.

Você tem que crer muito mais em Jesus do que crer na Bíblia inteira. Você tem que praticar muito mais o que Jesus falou do que praticar a Bíblia toda, porque é impossível praticar a Bíblia na íntegra e praticar o que Jesus ensinou ao mesmo tempo.

Jesus corrigiu partes anteriores da Bíblia. Então, se você quer saber se algo é bom ou se não é, se deve ser praticado ou não, se volte para o que Jesus falou.

O que a gente aprende sobre Deus é com Jesus. Não é com Abraão, não é com Moisés, não é com Davi. Todos esses foram homens importantes, mas não conheceram o Evangelho. Então, é papel do cristão se dedicar ao Evangelho.

E aí, fica uma última pergunta: “Mas a Bíblia não é a palavra de Deus?”. E a resposta é: Sim. Naquilo que combina com Jesus.

Em tudo o que os textos do Antigo Testamento combinarem com o Evangelho, será a palavra de Deus. Aquilo que não combina, são textos provisórios, já ultrapassados, que servem para a gente entender a mentalidade daqueles que viveram antes de Jesus. Porque a palavra de Deus é Jesus.

Ele é a palavra que se fez carne e habitou entre nós, e só através de Jesus é que a palavra de Deus se fará realmente presente. Lembre-se do que Ele disse: eu sou o caminho, a verdade e a vida.

CAPÍTULO 6 – DEIXANDO DE LADO A LEITURA INFANTIL DA BÍBLIA

Primeiro é preciso que se faça a distinção entre o que você quer e o que você espera da Bíblia, precisa se responder a essa pergunta: Eu quero a Bíblia para estudar ou para meditar?

Mas estudar e meditar não são a mesma coisa? Você pode perguntar.

A resposta é não. Veja bem, se você pega um texto da Bíblia e pergunta o por que esse texto foi escrito? Ou se você pega a Bíblia e pergunta, o que esse texto quer me dizer hoje? Você está fazendo duas perguntas diferentes, com intenções de respostas diferentes.

As primeiras respostas que você precisa para estudar a Bíblia de forma correta, são: por que esse texto foi escrito? Quem é que escreveu? Quando escreveu? Para quem ele escreveu? O que estava acontecendo na época quando o texto foi escrito?

Mas se você pega o texto bíblico e se pergunta: o que esse texto quer me dizer hoje? O que esse texto me ilumina para eu tomar uma decisão hoje? O que esse texto me mostra sobre como eu tenho que viver hoje? Aí você quer meditar a Bíblia.

Só que, e aí que está o grande ponto, para você conseguir meditar a Bíblia, antes é necessário você estudar a Bíblia.

Não adianta ficar pegando Bíblia, abrindo aleatoriamente, e achando que vai brotar dali uma palavra para você, isso é superstição. Isso é transformar a Bíblia em um amuleto de sorte, em um livro de adivinhações. A Bíblia não é um livro mágico, que você abre de qualquer maneira e espera brotar dali uma palavra.

Não é assim que se lê a Bíblia. Para você meditar a Bíblia, ou seja, para você perguntar para a Bíblia, o que esse texto quer me dizer hoje, você antes tem que ter estudado a Bíblia. Antes de tirar uma mensagem para você, antes de tirar uma doutrina para você, antes de tirar um comportamento para você, você tem que ter entendido o texto.

Por que esse texto foi escrito? Para quem ele foi escrito? Quando foi escrito? Qual era a situação da época? Porque se você não tiver base de conhecimento sobre o texto, sabe o que o texto vai te informar? Nada. Se você não tem conhecimento do texto, ele não te diz absolutamente nada. O pior, você vai abrir o texto, vai ler do seu jeito, vai entender alguma coisa e vai achar que isso é a voz de Deus para você.

Se você não tem conhecimento do texto, você não pode tirar lições do texto para você. Você não pode meditar.

Isso é uma coisa própria da Igreja Católica, que não trata a Bíblia como um livro mágico, como um livro supersticioso. E não ensina a abrir a Bíblia em qualquer lugar, apontar o dedo e achar que dali vai brotar um oráculo. Isso tudo é crendice, é superstição. Você não encontra essas orientações no Catecismo da Igreja Católica, nem no ensino dos papas, nem no direito canônico, nem em lugar nenhum.

Então vamos começar com Provérbios 2, de 1 a 6:

Meu filho, se acolheres minhas palavras e guardares com carinho meus preceitos,

Ouvindo com atenção a sabedoria e inclinando teu coração para o entendimento;

Se tu apelares à penetração, se invocares a inteligência,

Buscando-a como se procura a prata;

Se a pesquisares como um tesouro,

Então compreenderás o temor do senhor, e descobrirás o conhecimento de deus,

Porque o senhor é quem dá a sabedoria, e de sua boca é que procedem a ciência e a prudência.

Esse provérbio é importante porque oferece um passo a passo para você ter o conhecimento de Deus, que é o buscamos quando estudamos a Bíblia. Ter o conhecimento de Deus. Ele diz, meu filho, se acolheres minhas palavras e guardares com carinho meus preceitos, o que temos aí? Temos uma reverência.

Está dizendo, meu filho, tenha reverência, tenha atenção pelas palavras, guarde com carinho as palavras, guarde com carinho os preceitos, tenha reverência. E continua: ouvindo com atenção a sabedoria, inclinando teu coração para o entendimento, se apelares a penetração, se invocares a inteligência. Aqui ele fala do desejo, da vontade sincera e da busca profunda.

Tenha desejo, inclina teu coração, quer dizer, coloca o teu desejo nessa palavra. Então ele falou de fazer a reverência e de colocar o seu desejo. E continua: buscando-a como se procura a prata, se a pesquisares como um tesouro.

Como é que se busca algo como se busca a prata? Como é que se busca a prata? Como é que se pesquisa um tesouro?

Você senta em algum lugar, fecha o olho e a prata aparece? Você senta em algum lugar, fecha o olho e o ouro aparece? Não. Aqui, Provérbios está nos indicando para buscar a palavra, buscar o conhecimento de Deus, como se busca a prata, como se pesquisa um tesouro. Como é que se faz isso? Com trabalho, empenho e muita dedicação.

Estudar a Bíblia dá trabalho. Conhecer a palavra de Deus dá trabalho. Então compreenderás o temor do Senhor. Ou seja, se você tiver reverência, desejo e trabalho, você compreenderá o temor do Senhor.

Temor não é medo, temor é amor. Na prática, é desejo de agradar, é desejo de estar junto. Então compreenderás o temor do Senhor. E descobrirás o conhecimento de Deus.

Porque o Senhor é quem dá a sabedoria. E de sua boca é que procedem a ciência e a prudência. Veja, o Senhor é quem dá a sabedoria. Mas observa que o texto diz o modo como o Senhor dá a sabedoria. O Senhor não dá a sabedoria por alguém pegar a Bíblia, abrir e levantar a mão para o céu, esperando vir a sabedoria, caída diretamente do céu. Não é assim, é preciso ir buscar, procurar por ela.

O Senhor dá a sabedoria para aquele que tem reverência, que deseja e que trabalha, que estuda e que busca o conhecimento, como se procura a prata, como se procura o tesouro, é por isso que o estudo da Bíblia deve ser encarado e compreendido com a seriedade que lhe é própria, e não com achismos ou gracejos, é coisa séria e é trabalho duro, com respeito, porque, caso contrário, pode produzir não um conhecimento abençoado, mas um conhecimento distorcido, perigoso e amargo.

FORMAS PERIGOSAS DE USAR A BÍBLIA.

Tem formas perigosas de você usar a Bíblia. A primeira é querer orar antes de ler, apenas orar. Mas não se deve orar para ler a Bíblia? Você tem que orar para tudo. Paulo disse, orar e sem cessar. Você tem que orar para tudo.

Agora, orar e trabalhar. É como dizem os beneditinos, ora et labora, ora e trabalha, reza e trabalha.

Então, antes de ler a Bíblia, apenas orar como se uma iluminação celeste fosse cair e você fosse entender tudo, não é saudável e nem produtivo. Para aprender a Bíblia, tem que orar, sim, mas estudar acima de tudo.

Outra forma perigosa de usar a Bíblia é abrir a Bíblia na estante. Deixar a Bíblia na estante da sala, aberta no Salmo 90. Porque o Salmo 90 é poderoso. Sabe o que vai acontecer se você deixar a Bíblia aberta na sala, no Salmo 90? Vai encher de poeira, só isso. Mais nada. Porque, repito, a Bíblia não é um livro mágico.

A Bíblia não é um amuleto de sorte. Deixar a Bíblia aberta na estante e pendurar uma ferradura atrás da porta são a mesma coisa e produzem o mesmo resultado, nada. A Bíblia é para ser lida e vivida. A Bíblia só tem utilidade se você compreende as palavras e as práticas.

Mais uma forma perigosa de ler a Bíblia é somente pela liturgia diária. As leituras do dia.

Qual é o problema de você ler só pela liturgia diária?

É porque na liturgia diária não tem uma sequência. Depende das festas litúrgicas que estão sendo celebradas. Então, é melhor você ler o texto inteiro. Para que, quando você ler o trechinho recomendado pela liturgia diária, você tenha a noção do todo.

A SERIEDADE DOS ESTUDOS BÍBLICOS

Você tem que saber, quando pega a Bíblia, que você não está pegando um livro, você não está lendo um livro. Você está lendo uma coleção de livros. Uma biblioteca, e como toda biblioteca, ela está organizada por temática, então para um bom estudo Cristão da Bíblia, deve-se separar, antes de mais nada, o Antigo e o Novo Testamento, porque você tem que saber que o Novo Testamento corrige muita coisa do Antigo. Tem muita coisa válida no Antigo Testamento, mas tem muita coisa que já passou, que faz parte de um tempo que já acabou. E que o que está valendo hoje é o Novo Testamento.

Então, não dá para você pegar a Bíblia de capa a capa e querer praticar tudo o que está ali. Tem coisas que já não valem mais. Se valesse tudo o que estava na Bíblia, você não podia aparar a barba, porque é proibido no Antigo Testamento. Você não poderia comer camarão, é proibido. Você não poderia comer carne de porco, é proibido.

É por causa desse tipo de leitura, por exemplo que as testemunhas de Jeová não fazem transfusão de sangue. O filho morre e eles não permitem a transfusão de sangue, porque eles leem a Bíblia entendendo de capa a capa que tudo está valendo. Não está. Tem coisa que já passou.

Então, tem gente que pergunta: “o livro de Jó, a história de Jó é real?” Aí eu falo: “olha onde ela está. O livro de Jó está dentro dos livros sapienciais”. O que são os livros sapienciais? Poesia.

O livro de Jó é uma poesia. Assim como os Salmos, Provérbios, Eclesiástico, Eclesiastes, são poesias. Por isso que está no bloco de livros sapienciais, livros de sabedoria.

E ainda tem livro que corrige o livro anterior. Por exemplo, Cântico dos Cânticos corrige Gênesis 3. O Evangelho corrige a lei de Moisés. Levítico, Números deuteronômio. Não dá para achar que todos os livros dessa biblioteca chamada Bíblia falam da mesma coisa. Não falam.

Tem textos que estão no mesmo livro, mas não foram escritos na mesma época, pelo mesmo autor. Por exemplo, Gênesis.

Os primeiros textos de Gênesis, A Criação da Terra, Adão e Eva, Caim e Abel, O Dilúvio, são textos independentes, escritos por pessoas diferentes em tempos diferentes, que depois foram juntados. O estudo da Bíblia é complexo.

Gênesis, de 1 a 11, é um livro. De 12 a 50 é um outro livro. Que foram sim, juntados numa mesma seção, num mesmo bloco, mas foram escritos por pessoas diferentes em épocas diferente e com habilidades diferentes de compreender e narrar aqueles fatos.

Temos Salmos, os 150 Salmos, que são cinco livros diferentes. De 1 a 41 é um Salmo, de 42 a 72 é outro Salmo, de 73 a 89 é o terceiro livro, de 90 a 106 é o quarto livro, de 107 a 150 é o quinto livro. Havia vários livros de Salmos que foram juntados em um só.

O livro de Isaías, não foi escrito pela mesma pessoa. Nós tivemos três autores para o livro de Isaías. Do capítulo 1 ao 39 é o primeiro Isaías. Depois de 40 a 55, segundo Isaías. Depois, de 56 a 66, é o terceiro Isaías. Com distância de mais de 200 anos do primeiro para o terceiro. É importante você ter essa noção para não transformar a Bíblia num objeto supersticioso, mágico.

É importante você ter essa noção para transformar a Bíblia no que ela é: Um livro que tem que ser respeitado.

E como é que eu respeito a Bíblia? Estudando a Bíblia com seriedade. Compreendendo os contextos, o histórico, os autores, a situação da época.

O Vaticano tem um documento chamado A Interpretação da Bíblia na Igreja. Esse documento é de 15 de abril de 1993, nele, o Vaticano diz: A Sagrada Escritura, enquanto palavra de Deus em linguagem humana, foi composta por autores humanos em todas as suas partes e todas as suas fontes.

A Sagrada Escritura, enquanto palavra de Deus em linguagem humana, foi composta por autores humanos em todas as suas partes e todas as suas fontes. Isso significa que a Bíblia é um livro produzido pelo ser humano em todas as suas partes e em todas as suas fontes. Quem escreveu a Bíblia pesquisou em fontes humanas.

A Igreja Católica não crê que Deus ditou no ouvido de alguém ou que alguém teve uma lavagem cerebral divina e ficou sabendo o que nunca soube, ou que um mistério foi revelado. Não! Os autores da Bíblia também estudaram para escrever a Bíblia. Os autores da Bíblia experimentaram a vida como nós experimentamos e registraram na Bíblia as suas experiências.

Então a Bíblia não é um livro mágico para lermos hoje e não foi um livro mágico quando foi escrito. O escritor bíblico não sabia que estava escrevendo a Bíblia. Ele estava escrevendo um texto para o pessoal dele, na época dele.

Ele não sabia que aquele texto depois ia ser pego, juntado a outros e formado uma Bíblia. Então não tem nada de mágico na Bíblia. Nem na sua origem, nem hoje na sua leitura.

E é por isso que existem muitos profissionais envolvidos no estudo da Bíblia, muita gente acha que Bíblia é coisa de padre, Bíblia é coisa de teólogo, Bíblia é coisa de religioso, Bíblia é coisa de pastor. Não. Para compreender a Bíblia, nós dependemos de muitos profissionais sérios.

Há um profissional bíblico chamado crítico textual. Que pega todos os textos antigos escritos, manuscritos, textos de mil, dois mil anos, fragmentos que são encontrados aqui e ali, e compara um manuscrito com outro, um pedacinho com outro pedacinho, para achar o texto mais próximo possível do original, porque nós não temos mais o original que deu origem à Bíblia, o tempo acabou com eles.

Tem ainda o exegeta, que é uma pessoa que compreende o sentido do texto, seu significado histórico. Ele estuda palavra por palavra, sentido por sentido. Nós ainda temos o historiador, que é o professor que conhece história, é o estudioso da história humana. Ele contribui para nós entendermos a Bíblia, porque ele nos explica a história daquela época em que foi criada o texto que deu origem à Bíblia e o tempos da própria Bíblia, em que foi escrita.

Nós temos também o arqueólogo, que é aquele que faz escavações nas terras e vai descobrindo textos antigos, jarros antigos, objetos antigos, moedas outras coisas, e ajuda o historiador a reconstruir aquela história para compreendermos de fato o que acontecia naquele tempo. Você tem o antropólogo que estuda os rituais, a religiosidade e os costumes de uma época.

Você tem o químico e o físico, que verificam o tempo do fragmento de texto que foi encontrado, e os fenômenos que a Bíblia narra. Você tem o filólogo, que estuda as línguas antigas, e vai ajudar o exegeta a entender o texto. Você tem o tradutor, que traduz o texto para a nossa língua. Tem o geólogo, que é quem estuda o terreno bíblico, o território, as montanhas, os rios e vegetações.

Então, o teólogo, o padre, o pastor, quando ele é sério, ele não fica abrindo a Bíblia em qualquer lugar. Ele vai estudar com o geólogo, com o tradutor, com o filólogo, com o antropólogo, com o químico, com o historiador, com todos esses profissionais para compreender o sentido do texto.

Vou dar um exemplo, Gênesis 15, 7. E disse-lhe, eu sou o Senhor que te fez sair de Ur da Caldeia para dar-te esta terra. É Deus falando para Abraão.

Algumas pessoas falam: “esse texto de Gênesis foi escrito por Moisés.” Será que esse texto pode ter sido escrito por Moisés? Vamos ver. Abraão viveu 1.800 anos antes de Cristo. Moisés viveu 1.240 anos antes de Cristo. Será que esse texto pode ter sido escrito por Moisés? De que data são os textos em Israel? Os textos daquela região começam a aparecer quando não há textos, e aí a gente sabe pelos historiadores, pelos arqueólogos, pelos químicos, que não há textos anteriores a mil anos antes de Cristo.

Ou seja, como Moisés viveu 1.200 anos antes de Cristo, e não existe escrita em Israel antes de mil anos antes de Cristo, então Moisés não escreveu texto nenhum. Os textos que são atribuídos a Moisés não são de Moisés. Hoje todos nós sabemos disso.

E mais, diz o texto que Deus fala para Abraão sair de Ur da Caldeia. Então Deus fala para Abraão sair de Ur da Caldeia. Mas qual é a história dessa cidade de Ur? Aí você tem que perguntar aos historiadores daquela região.

Sabe o que os historiadores contam? Que os caldeus, tomam posse da cidade em 612 a.C. O que significa? Que os caldeus tomam posse da cidade 600 anos depois de Moisés. Ou seja, o nome Ur da Caldeia só passa a existir 600 anos depois de Moisés.

Então como é que 600 anos antes, Moisés ia escrever Ur da Caldeia? Não ia. Porque não existia Ur da Caldeia no tempo de Moisés. Então quando você descobre a história, você começa a entender.

Então quando juntamos historiadores, arqueólogos, químicos e todo os outros profissionais, começamos a entender a formação da Bíblia.

É a mesma coisa que aconteceu com a doação que teria sido realizada pelo Imperador de Roma Constantino, o Grande, de boa parte da Itália para a Igreja Católica, se descobriu depois, através do Filólogo Lourenço Waller, que Constantino não poderia ter editado aquela doação porque no texto eram usadas palavras em um Latim Eclesiástico que não era usado no tempo do Imperador, ou seja, era uma clara falsificação feita posteriormente ao governo de Constantino, e é por isso que hoje, com a Igreja reconhecendo a falsidade do documento, que ela possui apenas a cidade do Vaticano, e não grandes partes da Itália, como pretendia o documento de doação.

Então, o católico tem um diferencial na leitura da Bíblia, que é a existência de três bases para a fé. A Bíblia, a tradição e o magistério. A Bíblia, a palavra de Deus escrita. A tradição, que é a palavra de Deus falada. E o magistério, que é o ensino dos Papas, e é a palavra de Deus praticada.

Por isso que eu recomendo vivamente a vocês que, junto com a Bíblia, vocês tenham o Catecismo da Igreja Católica. Porque neste texto está a tradição da igreja.

ESTUDOS E ROTINAS

O que é aprendizado, e o que estudo?

Aprendizado, para mim, tem a ver com repetição, porque isso vai condicionando seu cérebro. Veja, seu cérebro, apesar de não ser um músculo, precisa de exercício, porque ele vai aprendendo coisas ao longo da vida e, nesse processo de aprendizagem, ele acaba deixando algumas coisas para trás, caindo no esquecimento, por isso, principalmente para os estudos e aprendizado Bíblico e religioso de forma geral, a repetição é tão importante, porque ajuda seu cérebro a se lembrar que isso ele não pode esquecer. Se não tem repetição, o cérebro não grava. A repetição é a mãe da aprendizagem.

A nossa mente é igual uma panela de sopa. A gente tem a panela, que é o neocórtex. É uma parte que fica atrás da testa, e é onde guardamos as coisas, onde raciocinamos. Ali dentro temos as sensações, as imagens, os sons, e isso tudo forma a memória. Só que a nossa memória não guarda exatamente o que aconteceu, ela guarda aquilo que entendemos do que aconteceu.

Por isso que a Bíblia tem que ser muito respeitada e você, quando vai falar da Bíblia, precisa ler, reler, entender o contexto e ler de novo. Porque é muito comum que as pessoas leiam a Bíblia, mas não leem a Bíblia. Elas estão lendo, mas estão projetando na Bíblia aquilo que elas acham, aquilo que elas têm na cabeça.

Coisas que ouviram em algum lugar, guardaram mais ou menos, e que agora ela vai ler, pegar aquilo da sua memória, e querer aplicar na Bíblia. Então ela lê o texto, mas não compreende o texto. Ela acha que compreende, porque projeta no texto as ideias que já estão na própria cabeça.

Respeitar a Bíblia é ler, reler, anotar, compreender o contexto e compreender o sentido. Senão você fralda a Bíblia ao fraldar o sentido do texto.

AUTO AFIRMAÇÃO E CONFIANÇA

Existe o placebo e o nocebo. Placebo é tudo aquilo que é falado com alguém para melhorar a pessoa. Por exemplo, o médico que trata alguém bem. O paciente chega na clínica e o médico fala: “que bom que você chegou, você está ótimo, você é muito forte, você vai superar isso”.

Essas palavras do médico são placebo, porque ajudam o paciente a melhorar. Agora, se você chega no médico e ele fala, “nossa, seu exame está ruim, eu acho que você não vai longe não, você tem pouco tempo de vida”. O nome disso é nocebo. São palavras que podem matar a pessoa. Porque o médico tem muita autoridade.

Então quando se fala alguma coisa boa, isso te eleva. Quando se fala alguma coisa negativa, te afunda. É o poder da palavra.

Quando você vai estudar a Bíblia, ou qualquer outra coisa, você não pode ter nocebos para você. Você não pode ficar falando para você, “ah, eu não consigo”. “Ah, isso é difícil”. “Ah, eu não gravo”. “Minha memória é ruim”.

Isso vai estragar a sua capacidade de aprendizagem. Se você vai estudar e já começar assim, você já criou um problema para seu aprendizado. Ao invés de você dizer, isso é muito difícil, diga: “já superei coisas mais difíceis antes, agora eu vou ler isso aqui rápido”.

Isso é placebo, e é psicologicamente comprovado. Quando você entra com uma atitude positiva, quando você fala palavras positivas, isso te ajuda. Isso não tem nada de milagre, nem de espiritual, é puramente psicológico.

Por exemplo quando você fala: “que eu consiga entender a palavra de Deus”, ou quando você diz: “essa informação é importante para que eu consiga entender a palavra de Deus, e eu quero que ela fique arquivada com perfeição na minha memória”. É preciso observar o tom de voz, para ser um tom de voz verdadeiro, para você não falar de forma tímida, nem duvidosa, mas falar com firmeza. “Essa informação é importante para que eu consiga compreender a palavra de Deus e eu quero que ela fique arquivada com perfeição na minha mente”.

Antes de estudar, você tem que criar um clima de estudo, de aprendizagem, de capacidade e de afirmação para si mesmo.

A nossa memória tem quatro estágios, de acordo com a imagem:

O primeiro estágio é da aprendizagem. A aprendizagem depende de foco. Eu tenho que ter foco, aprender, depois eu consolido a aprendizagem. Depois eu implanto essa aprendizagem, fazendo a repetição daquilo. Porque tudo aquilo que eu repito, meu cérebro grava. Se eu não quero que o cérebro jogue fora alguma coisa, eu tenho que repetir. Repetir, repetir e repetir.

Quanto mais eu repetir, mais meu cérebro grava, e depois que você repete, e o cérebro grava, ele arquivará essa memória e passará ao estágio do recrutamento da informação.

O recrutamento é o resgate de alguma informação armazenada pelo seu cérebro, num momento em que você precisar daquela informação. Então, você tem que aprender primeiro, ouvir com atenção, ter foco, guardar, aí depois você vai consolidar, repetir, repetir, repetir, até que aquilo consolide. A partir do momento que se consolida, o cérebro arquiva e depois ele recruta, e chamará aquela informação na hora que ele precisar.

O segredo da memorização é a consolidação, ou seja, repetição. Aprendizagem é hábito. E hábito se cria repetindo aquilo que não se deseja esquecer, e lembra-se que há de se ter o desejo pelo estudo e aprendizagem Bíblica.

LIVROS QUE ME AJUDAM A ENTENDER A BÍBLIA

Então, vou compartilhar com você um pouquinho dos meus materiais de estudo da Bíblia, lembrando que são apenas indicações que eu mesmo uso, mas você pode, obviamente, buscar por outras fontes de estudo.

– Chave bíblica. Chave bíblica católica. Da editora Ave Maria, mas tem de várias editoras. A chave bíblica é um livro que você escolhe um tema e ele te mostra todas as passagens da Bíblia que têm aquele tema.

– Dicionário enciclopédico da Bíblia. Da editora Vozes.

– Dicionário bíblico católico. Dicionário Teológico. Vai te ajudar a entender bem determinadas questões.

– Bíblia Interlinear. Esse aqui é o Novo Testamento. O Novo Testamento foi escrito em grego. Então, ele traz aqui o texto grego, na tradução e no original. Porque as Bíblias vão sendo traduzidas e vão mudando um pouco as palavras, os sentidos, para caber na nossa linguagem em português.

– Quem é quem? Da Editora Vida. Ele pega os personagens da Bíblia, todos. Todos os nomes que aparecem na Bíblia e conta quem era, o que fazia, onde vivia. É um livro protestante, mas serve ao nosso propósito de estudos.

– A Bíblia Desenterrada. De Israel Finkelstein, um arqueólogo judeu que escava a terra de Israel e vai contando a história a partir das escavações que ele vai fazendo, do que ele vai achando, sobre os materiais das épocas. Isso aqui ajuda a gente a entender a Bíblia. É um material arqueológico.

– Introdução Socioliterária à Bíblia Hebraica. Da Editora Vozes. Esse livro nos ajuda a entender as datas. As datas dos textos, quando é que foi escrito, por quê, o que aconteceu.

– Compêndio do Cânon Bíblico. Da editora Vozes. Esse livro aqui conta a história da formação da Bíblia. Todos os processos que tiveram, todas as pessoas envolvidas, e de todos os documentos escritos para a Bíblia chegar até os dias de hoje.

– Bíblia Ave Maria de estudos.

– Bíblia de Jerusalém.

– Bíblia do Peregrino.

Assim, bons estudos para todos nós, e que a paz e conhecimento de Jesus nos possa acompanhar em cada ponto de nossa jorna de vida, de estudos e de aprimoramento.

NOTAS

1 Igualmente acontece com a figura do Diabo, que ele seja um anjo decaído em revolta contra Deus, que é a base de boa parte das Igrejas atuais. Nada disso está na Bíblia, como também não está a intercessão de Maria, a intercessão dos Santos, o purgatório e os sacramentos.

2 O Templo de Zorobabel teria sido o segundo Templo ou a reconstrução do Templo realizada após a libertação do cativeiro na Babilônia.

3 Nascido em proeminente família de comerciantes Judeus, Saulo herdou a cidadania Romana adquirida por seu pai, tendo então dois nomes oficiais, uma para os Judeus de sua origem, Saulo e outro para sua cidadania Romana, Paulo, que viria a se tornar São Paulo, ou Santo Paulo.

4 Palavra de origem Grega (απόκρυφα — apókryfa), que se significa escondido ou oculto. O termo ‘apócrifo’, no entanto, em sua origem, não tem nenhuma correlação com algo que seja escondido ou que seja envolto em mistérios, como hoje se costuma pensar, o termo é apenas para dizer que algo não tem sua origem certa, ou seja, que não se pode afirmar quem tenha de fato o escrito. É a mesma coisa que você recebesse em sua casa um texto ou uma carta, ou um bilhete, que não esteja assinado, ele será apócrifo, ou seja, sem designação da autoria do texto.

5 A mística sobre os Textos Apócrifos e seus possíveis conteúdos ganhou ainda mais força na cultura pop atual através de livros, que depois se tornaram filmes, como “O Segredo” ou “O Código da Vince”.

6 Proto = primeiro; Canônico = cânon, lista.

7 Deutero quer dizer segunda vez.

8 Os gnósticos era um grupo de filósofos que aderiram à fé cristã, ou melhor, começaram a usar a fé cristã para embasar suas ideias, só que a filosofia deles não tem nada a ver com o que Cristo pregava, então começaram a alterar os ensinamentos de Cristo para caber dentro dessa filosofia que pregavam. Por exemplo: os gnósticos acreditavam que a verdade da vida é algo oculto e que poucos podem ter acesso. Não é algo que todo mundo pode conhecer, mas somente alguns privilegiados podem ter acesso à verdade. No entanto, Cristo disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, andava abertamente no meio da rua, falava com todo mundo, ensinava a todos. Em Cristo, não tem doutrina secreta, o Evangelho não tem segredos, mas os gnósticos quiseram transformar o Evangelho em algo sigiloso. Já o Evangelho de Tomé traz um Cristo misterioso, que ensina apenas para os seus escolhidos, trazendo ainda um horror ao corpo, uma rejeição da matéria, considerada má e impura. Os gnósticos ainda proibiam o casamento, por considerar que isso diminuía a espiritualidade.

9 Juiz, nesse período e nessa cultura, não é o juiz como pensamos nos dias de hoje. Era um tipo de governador que, por sabedoria e outros atributos, estava à frente do povo.

10 Importante ressaltar que na época em que a Bíblia foi escrita, a língua universal era o Grego. A semelhança com o que temos nos dias atuais com o Inglês. As línguas universais, ou internacionais derivam, em essência, da língua falada pelo povo que detém o poder político dominante, já foi o Aramaico, no tempo dos Persas, o Grego no tempo dos Gregos e Romanos, o Latim durante a Idade Média, e hoje o Inglês.

11 Betume é um tipo de mistura viscosa que se usa para rebocar ou cobrir alguma superfície que se deseja proteger, principalmente da água. Daí deriva a palavra Beton (concreto), que é a mistura de areia, cimento, pedra e água, que usamos nos dias atuais.

12 Ceratonia siliqua.

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Respostas de 11

  1. Estou aprendendo bastante, acho que já estou ficando adulta kkkkkkkk. Obrigada professor, Thiago e toda equipe que fazem esse trabalho maravilhoso. Deus os abençoe grandemente.

  2. Gosto muito do trabalho de vocês. Eu tenho aprendido muito com o podclest. Thiago é muito bacana eo profissionalismo do professor Carlos e um escândalo. Kkkkk.Obrigado meninos pelo programa. Uma verdadeira aula de Teologia. Grande abraço

  3. Excelente o trabalho de vcs, parabéns a todos da equipe, parabéns ao Prof. Carlos e Tiago, Talia, Romito, todos na simplicidade, nos dando melhor entendimento nesse tão Poderoso Nosso Senhor Jesus Cristo, e vamos seguir seus ensinamentos e praticar, que não é fácil, Deus abençoe a todos.

  4. É como vc diz, muitas pessoas não lêem a bíblia por não saber, esse era o meu caso.
    Mas depois que comecei a assistir seus vídeos, ficou mais fácil 🙏🏻

  5. Seu trabalho é excelente,muito gratificante, muito aprendizado, aguardando só um pouco pra adquirir seus cursos.

  6. Que Deus abençoe o trabalho de vcs, esta sendo muito revelador, quebrando místicas e fazendo-nos ler a Bíblia sem o olhar fundamentalista.

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