Existe um ponto de partida que muda completamente a forma de enxergar a religião. Ele não está na fé, nem nos ritos, nem nas doutrinas, mas na forma como a mente humana é conduzida dentro de um sistema religioso. A religião, quando organizada, não se sustenta apenas por crença; ela se sustenta por mecanismos psicológicos muito bem definidos, que operam de maneira previsível e repetitiva ao longo da história. E esses mecanismos podem ser resumidos em dois caminhos fundamentais: o medo e a proteção. Não existe um terceiro. Toda estrutura religiosa, em algum momento, conduz o indivíduo por um desses dois eixos, ainda que use linguagens diferentes para disfarçar essa operação.
O caminho do medo é o mais antigo e talvez o mais eficiente para estabelecer controle. Ele funciona a partir de uma lógica simples, mas profundamente enraizada: o indivíduo precisa acreditar que há algo essencialmente errado com ele. Não se trata apenas de erro moral ou de falhas pontuais, mas de uma condição estrutural de culpa, uma espécie de falha do seu ser que o torna indigno, inadequado e permanentemente em dívida. Essa ideia, quando internalizada, reorganiza completamente a percepção que a pessoa tem de si mesma e do mundo ao seu redor. A partir desse ponto, tudo o que acontece na sua vida passa a ser interpretado como consequência dessa condição: o sofrimento não é mais um problema a ser analisado, mas uma punição a ser aceita.
Dentro desse modelo, o diabo até aparece, mas não ocupa o centro da narrativa. Ele está presente como elemento teológico, como figura que compõe o cenário do mal, mas não é o protagonista da experiência religiosa. O foco permanece no fiel, que é constantemente lembrado de sua culpa, de sua insuficiência e de sua incapacidade de alcançar qualquer forma de justiça por si mesmo. A linguagem utilizada reforça essa estrutura: palavras como pecado, condenação, inferno e juízo não são apenas conceitos abstratos, mas ferramentas que produzem um estado psicológico específico. A pessoa passa a viver em permanente alerta, em constante tentativa de se ajustar a um padrão que nunca consegue atingir plenamente.
O efeito disso é profundo e duradouro. A autoestima é gradualmente corroída, a autonomia é reduzida e a capacidade de questionamento praticamente desaparece. Afinal, se o problema está em mim, não faz sentido questionar quem está tentando me corrigir. O sistema, então, se torna autojustificável: qualquer sofrimento reforça a ideia de culpa, e qualquer tentativa de resistência é interpretada como rebeldia ou falta de fé. Nesse ponto, o controle já não precisa ser imposto de fora para dentro, porque ele passa a operar internamente, na forma como o próprio indivíduo interpreta a sua realidade.
Esse modelo, porém, tem um limite claro. Ele é extremamente eficaz para manter pessoas dentro do sistema, mas não é tão eficiente para expandi-lo. Uma estrutura baseada exclusivamente na culpa tende a gerar desgaste, cansaço e, em muitos casos, abandono. E é justamente nesse ponto que ocorre uma das mudanças mais importantes na história recente da religião: a transição do controle pela culpa para o controle pela proteção. Não se trata de uma ruptura, mas de uma adaptação estratégica, uma mudança de linguagem que mantém o mesmo objetivo, mas altera completamente a forma como ele é apresentado.
No modelo da proteção, o ponto de partida já não é mais a culpa, mas a vitimização. O indivíduo deixa de ser o responsável pelo mal que experimenta e passa a ser alguém atingido por forças externas que o prejudicam. Essa mudança é sutil, mas extremamente poderosa, porque desloca o eixo da narrativa: o problema não está mais dentro, está fora. E esse deslocamento exige a construção de um novo protagonista para o mal, alguém ou algo que possa assumir a responsabilidade pelo sofrimento humano. É nesse momento que o diabo deixa de ser um elemento secundário e passa a ocupar o centro do discurso.
Agora, o diabo não é apenas uma figura teológica; ele é a explicação para tudo o que não funciona. Problemas financeiros, doenças, conflitos familiares, fracassos pessoais, tudo pode ser atribuído a uma ação externa, invisível e maligna que precisa ser combatida. Essa nova configuração muda completamente a experiência religiosa, porque altera a forma como o indivíduo se percebe. Ele já não se vê como alguém essencialmente falho, mas como alguém injustiçado, atacado, impedido de viver aquilo que merece. E essa ideia de merecimento passa a ocupar um lugar central na nova lógica.
A partir daí, surge a necessidade de oferecer soluções compatíveis com essa nova narrativa. Se o problema é externo, a resposta também precisa vir de fora. Entram em cena os discursos de libertação, de cura, de vitória e de prosperidade, que prometem não apenas aliviar o sofrimento, mas restaurar aquilo que foi supostamente roubado. A religião, então, deixa de ser apenas um espaço de correção moral e passa a se apresentar como um ambiente de intervenção prática na vida das pessoas. O fiel não busca mais apenas perdão; ele busca resultados.
Essa mudança cria um novo tipo de dependência, mais sofisticado e, muitas vezes, mais difícil de perceber. No modelo anterior, a pessoa dependia do sistema religioso para ser perdoada. Agora, ela depende do sistema religioso para ser protegida e restaurada. A lógica continua a mesma: sem a mediação religiosa, o indivíduo se sente vulnerável, exposto e incapaz de lidar com aquilo que acredita estar enfrentando. A diferença é que essa dependência vem acompanhada de uma sensação de esperança, de expectativa positiva, o que torna o vínculo ainda mais forte.
É por isso que a transição do medo para a proteção não pode ser confundida com libertação. O que ocorre não é a quebra de um sistema, mas a sua reconfiguração. Como já foi apontado na análise que fundamenta este capítulo, ninguém está sendo libertado nesse processo; está apenas sendo deslocado de uma forma de controle para outra. Sai-se de uma estrutura baseada na culpa para uma estrutura baseada na promessa, mas o objetivo permanece o mesmo: manter o indivíduo dentro de um ciclo de dependência, onde a sua experiência de vida é constantemente interpretada e mediada por uma lógica externa a ele.
Quando se observa esse movimento com atenção, fica evidente que o diabo desempenha um papel fundamental nessa engrenagem. Ele não é apenas uma crença isolada, mas uma peça funcional dentro de um sistema que precisa explicar o mal de uma forma que sustente sua própria estrutura. No modelo da culpa, ele ajuda a compor o cenário. No modelo da proteção, ele se torna indispensável. Sem ele, não há inimigo a ser combatido. Sem inimigo, não há conflito. E sem conflito, não há necessidade de libertação. Os grupos que vivem de “cura e libertação” têm que apontar para o diabo o tempo todo.
É justamente a partir desse ponto que a discussão se aprofunda. Porque, se o diabo pode assumir funções diferentes dentro de estruturas distintas, então ele não é apenas uma figura teológica fixa, mas um elemento que pode ser ajustado conforme a necessidade do sistema. E isso nos leva à próxima pergunta inevitável: se o diabo muda de papel ao longo da história, o que exatamente ele representa e, mais importante: a pregação insistente sobre o diabo é de interesse de quem?
Se o capítulo anterior mostrou como o sistema funciona, este capítulo precisa mostrar como ele se organiza na prática. E aqui está um dos mecanismos mais sofisticados e, ao mesmo tempo, mais invisíveis da religião: o diabo nunca está em quem fala, nunca está em quem conduz, nunca está em quem interpreta. O diabo está sempre no outro. Essa não é uma conclusão retórica, mas uma observação estrutural que atravessa séculos de discurso religioso e que se manifesta de formas diferentes, mas sempre com a mesma função: criar fronteiras claras entre quem pertence e quem deve ser rejeitado.
A religião não utiliza o diabo apenas para explicar o mal. Ela utiliza o diabo para localizar o mal. E localizar o mal significa atribuir a ele um endereço, um rosto, um grupo, uma ideia, um comportamento. O diabo, nesse sentido, deixa de ser uma abstração e passa a ser um marcador de identidade negativa. Ele não é apenas aquilo que se combate; ele é aquilo que define quem está fora. E essa operação é extremamente eficiente, porque permite que o grupo se organize sem precisar provar constantemente sua própria legitimidade. Basta apontar o diabo no outro para reafirmar a própria posição.
Essa lógica se constrói a partir de uma divisão básica, mas poderosa: nós e eles. Não é necessário elaborar longas argumentações sobre o que é o bem, desde que se consiga identificar claramente o que é o mal ou, mais precisamente, quem representa o mal. E é aqui que o diabo cumpre sua função mais importante. Ele transforma diferenças em ameaças, divergências em perigos e questionamentos em sinais de corrupção espiritual. A partir desse momento, o outro deixa de ser apenas alguém que pensa diferente; ele passa a ser alguém contaminado por algo que precisa ser combatido.
Esse processo não acontece de forma explícita na maioria das vezes. Ele se infiltra na linguagem cotidiana, nas expressões aparentemente inocentes, nos discursos que se repetem sem reflexão. Termos como “isso não é de Deus”, “isso é coisa do diabo”, “esse tipo de gente está perdido” não são apenas formas de falar; são instrumentos de classificação. Eles organizam o mundo em categorias rígidas, onde não há espaço para nuances. Ou você está do lado certo, ou você está do lado errado. E, se está do lado errado, não se trata apenas de um erro intelectual ou moral, trata-se de uma condição espiritual. Em outras palavras, aquele que não faz o que o meu grupo acha certo, está com o diabo.
O efeito psicológico dessa construção é imediato. Ao identificar o mal fora de si, o indivíduo experimenta uma sensação de alívio e de segurança. Ele não precisa mais lidar com a complexidade de suas próprias contradições, porque o problema principal já foi deslocado. O mal está lá fora, encarnado no outro, e isso permite que ele mantenha uma imagem de si mesmo positiva e, muitas vezes, superior. Essa sensação de superioridade não é necessariamente consciente, mas ela se manifesta na forma como o outro é tratado: com desconfiança, com rejeição ou, em casos mais extremos, com hostilidade.
Mas o impacto não é apenas individual. Ele é profundamente social. Quando um grupo inteiro adota essa lógica, ele passa a funcionar como um sistema fechado, onde qualquer elemento externo é visto como ameaça. Relações são interrompidas, diálogos são evitados e qualquer forma de aproximação é percebida como risco de contaminação. O isolamento não é apresentado como problema, mas como virtude. Separar-se do outro passa a ser sinal de fidelidade, e não de fragilidade. E quanto mais forte é essa separação, mais difícil se torna qualquer tipo de questionamento interno.
É importante perceber que esse mecanismo não depende de um conteúdo específico. Ele pode ser aplicado a diferentes contextos, diferentes temas e diferentes épocas. Em um momento, o “outro” pode ser alguém de outra religião. Em outro, pode ser alguém com uma visão política diferente. Em outro ainda, pode ser alguém dentro do próprio grupo que começa a questionar determinadas práticas. O alvo muda, mas a lógica permanece. O diabo continua sendo o recurso que permite deslocar o problema para fora e, com isso, preservar a estrutura interna.
E aqui surge um ponto decisivo: quando o diabo é sempre colocado no outro, ele deixa de ser uma realidade a ser compreendida e passa a ser uma ferramenta a ser utilizada. Ele não precisa existir como entidade concreta para cumprir sua função. Basta que seja acreditado como tal. Porque, uma vez que essa crença está estabelecida, ela pode ser acionada sempre que necessário para reorganizar o campo social, redefinir alianças e justificar decisões. O diabo, nesse sentido, não é apenas um personagem teológico; ele é um instrumento de gestão de relações.
Esse uso estratégico do diabo fica ainda mais evidente quando se observa como ele é mobilizado em momentos de conflito. Sempre que há tensão, disputa ou necessidade de reafirmação de poder, a linguagem se intensifica e o outro é rapidamente associado a algo maligno. Não se trata mais de discordância, mas de oposição espiritual. E, quando a oposição é espiritualizada, ela se torna mais difícil de resolver, porque deixa de estar no campo do argumento e passa para o campo da fé. Não se debate com o diabo; combate-se. Dizer que o outro é o mal, é o diabo, é o jeito mais covarde, mas muito eficaz, de cala qualquer debate.
Essa transformação do outro em inimigo espiritual tem consequências profundas, porque cria um ambiente onde a desumanização se torna possível. Se o outro não é apenas alguém que pensa diferente, mas alguém influenciado ou dominado por forças malignas, então tratá-lo com dureza pode ser justificado como uma forma de defesa. A agressividade, nesse contexto, deixa de ser vista como problema e passa a ser interpretada como zelo. E isso abre espaço para uma série de práticas fanáticas e abusadoras.
Ao longo do tempo, esse padrão se repete com pequenas variações, mas com a mesma estrutura de base. O diabo continua sendo projetado para fora, o outro continua sendo definido como ameaça e o grupo continua se fortalecendo a partir dessa oposição. O que muda são os contextos, os discursos e as formas de expressão, mas a lógica permanece surpreendentemente estável. E é justamente essa estabilidade que revela que não estamos diante de um fenômeno ocasional, mas de um mecanismo profundamente enraizado na forma como a religião organiza o mundo.
Compreender esse movimento é essencial para avançar na análise, porque ele prepara o terreno para algo ainda mais complexo. Se o diabo pode ser deslocado para o outro com tanta facilidade, então ele pode também ser mobilizado de maneira intencional para produzir efeitos específicos. E é exatamente isso que acontece quando essa lógica sai do nível individual e passa a operar em escala institucional e histórica. O diabo deixa de ser apenas um marcador de diferença e passa a ser uma ferramenta de poder.
É esse passo que será dado no próximo capítulo.
Vamos agora dar um passo além e entender que projetar o diabo no outro, diferente do meu grupo, não acontece por acaso. O “outro” não surge espontaneamente como inimigo. Ele é construído. Ele é produzido. E essa produção segue uma lógica muito bem definida, que não depende apenas de crença, mas de necessidade. Toda estrutura que pretende se manter ao longo do tempo precisa de estabilidade interna, e uma das formas mais eficientes de gerar essa estabilidade é criando um ponto de oposição claro. É nesse momento que o diabo deixa de ser apenas um elemento simbólico e passa a ser uma ferramenta ativa na construção de inimigos.
Criar um inimigo não é apenas identificar alguém como errado. É estabelecer uma narrativa em que esse alguém representa um risco real, uma ameaça concreta à ordem que se deseja preservar. Para que isso funcione, é necessário mais do que discordância; é preciso construir um imaginário. O outro não pode ser apenas diferente, ele precisa ser perigoso. E é exatamente aqui que o diabo entra como elemento central. Ao associar o outro a algo maligno, invisível e incontrolável, o discurso religioso eleva o nível do conflito e impede que ele seja resolvido de maneira simples.
Esse processo começa, quase sempre, de forma sutil. Pequenas diferenças são destacadas, comportamentos são interpretados de maneira negativa e ideias são apresentadas como desvios. Aos poucos, essas diferenças vão sendo acumuladas até formar um quadro coerente de oposição. Não se trata mais de um detalhe isolado, mas de um conjunto de características que passam a definir aquele grupo ou aquela pessoa como alguém que está fora do padrão. A partir desse ponto, o terreno já está preparado para a etapa seguinte: a associação direta com o mal.
Quando essa associação acontece, o outro deixa de ser apenas um adversário intelectual ou moral e passa a ser um adversário espiritual. Essa mudança é decisiva, porque transforma a natureza do conflito. Uma divergência pode ser discutida, negociada ou até resolvida. Mas uma ameaça espiritual precisa ser combatida. E, quando se entra nesse campo, a lógica deixa de ser racional e passa a ser simbólica, emocional e, muitas vezes, absoluta. Não há espaço para meio-termo quando se acredita estar lidando com algo que representa o mal em si.
É importante perceber que esse tipo de construção não exige provas concretas. Ele se sustenta pela repetição incessante do discurso. Quanto mais vezes o outro é associado ao diabo, mais natural essa associação se torna. E, com o tempo, ela deixa de ser questionada. O grupo passa a aceitar essa narrativa como parte da realidade, e qualquer tentativa de contestação é vista como suspeita. Afinal, se o outro já foi definido como maligno, quem o defende pode estar, de alguma forma, alinhado com ele.
Esse mecanismo tem uma vantagem estratégica evidente: ele simplifica o mundo. Em vez de lidar com a complexidade das relações humanas, das ideias e dos conflitos sociais, ele reduz tudo a uma oposição binária. De um lado, o bem. Do outro, o mal. De um lado, o grupo. Do outro, o inimigo. Essa simplificação torna o discurso mais fácil de ser transmitido, mais fácil de ser entendido e, principalmente, mais fácil de ser aceito. Não é preciso refletir muito quando tudo já está previamente classificado.
Mas essa simplificação tem um custo. Ela elimina a possibilidade de autocrítica. Porque, se o mal está sempre no outro, não há motivo para olhar para dentro. O grupo se vê como portador da verdade, da moral e da legitimidade, e qualquer problema interno é facilmente reinterpretado como influência externa. Isso cria uma espécie de blindagem psicológica, onde o sistema se protege de questionamentos mais profundos. O inimigo, então, não serve apenas para atacar; ele serve também para esconder fragilidades internas.
Ao longo da história, esse padrão se repete em diferentes contextos. Sempre que há necessidade de consolidar poder, de unificar um grupo ou de justificar determinadas práticas, o processo de criação do inimigo é acionado. O outro é identificado como inimigo, suas características são amplificadas, sua imagem é associada ao mal e, por fim, ele é apresentado como alguém que precisa ser combatido. O diabo, nesse processo, é o recurso que permite transformar uma diferença em ameaça e uma ameaça em justificativa. É um jeito muito fácil de uma liderança ser ouvida sem questionamento.
Essa dinâmica se torna ainda mais evidente quando se observa como ela é utilizada em momentos de crise. Quando há instabilidade, perda de controle ou necessidade de reorganização interna, a criação de um inimigo externo funciona como um mecanismo de compensação. Ao direcionar a atenção para fora, o grupo evita lidar com suas próprias tensões. E, ao fazer isso, reforça sua coesão interna. O inimigo, portanto, não é apenas um problema a ser enfrentado; ele é uma solução para manter o sistema funcionando. Observe como certos líderes estão o tempo todo acusando alguém, apontando o dedo… isso não é santidade, é técnica.
Com o tempo, esse processo deixa de ser apenas uma estratégia pontual e se torna parte da própria estrutura do discurso. O inimigo passa a ser necessário. Sem ele, o sistema perde uma de suas principais formas de organização. E é aqui que a função do diabo atinge um novo nível. Ele não é mais apenas uma explicação para o mal nem apenas um marcador de diferença. Ele se torna uma peça indispensável na manutenção do poder.
Quando se chega a esse ponto, a relação com o diabo muda completamente. Ele deixa de ser apenas temido e passa a ser, de certa forma, utilizado. Não de maneira consciente, necessariamente, mas funcional. O sistema religioso controlador precisa que ele exista, porque precisa de alguém que represente o mal. E, se esse alguém não estiver disponível, ele será criado. Porque, sem oposição, não há identidade. E, sem identidade, não há estrutura.
É justamente essa necessidade que abre caminho para o próximo passo da análise. Porque, quando um elemento se torna indispensável para o funcionamento de um sistema, ele deixa de ser apenas uma crença e passa a ter valor. E, quando algo tem valor, ele pode ser explorado, organizado e, eventualmente, transformado em produto.
É aqui que o diabo deixa definitivamente o campo da ideia e entra no campo do negócio.
Quando um elemento deixa de ser apenas uma crença e passa a ser necessário para o funcionamento de um sistema, ele inevitavelmente ganha valor. E quando algo ganha valor, ele deixa de ser apenas simbólico. Ele passa a ser operacional. Ele passa a ser explorado. É exatamente isso que acontece com a figura do diabo ao longo do desenvolvimento das estruturas religiosas mais recentes: ele deixa de ser apenas uma explicação para o mal e passa a ser uma engrenagem central na produção de resultados emocionais, sociais e, principalmente, financeiros.
O ponto de virada não está simplesmente na crença no diabo, mas na forma como essa crença é utilizada. Como vimos, o sistema já havia aprendido a deslocar o mal para fora do indivíduo, transformando-o em vítima de uma força externa. Esse movimento, que inicialmente parece aliviar a carga de culpa, cria uma necessidade imediata: se o problema está fora, alguém precisa agir para removê-lo. E é nesse exato momento que o diabo deixa de ser apenas um personagem teológico e se torna um problema prático que exige intervenção constante.
A partir daí, a lógica se organiza de maneira quase automática. Primeiro, define-se um inimigo invisível, impossível de ser verificado diretamente, mas sempre presente como explicação para qualquer dificuldade. Em seguida, estabelece-se que esse inimigo atua de forma contínua, afetando diferentes áreas da vida: saúde, finanças, relacionamentos, emoções. Por fim, apresenta-se um conjunto de práticas, rituais ou experiências que prometem neutralizar essa ação. O sistema está completo. E, mais importante, ele é autossustentável.
O diabo, nesse contexto, não precisa ser provado. Ele precisa apenas ser aceito. Porque, uma vez aceito, ele se torna a base de uma cadeia de necessidades que nunca se encerra. Sempre haverá algo a ser combatido, algo a ser quebrado, algo a ser restaurado. E cada uma dessas etapas pode ser associada a uma prática específica, a um momento específico, a uma ação que, direta ou indiretamente, mantém o indivíduo vinculado ao sistema religioso de orações, campanhas, reuniões… O problema nunca desaparece completamente, e isso se torna um ciclo sem fim que cria dependência do grupo e leva muito dinheiro para o bolso do líder.
Essa dinâmica se intensifica quando se observa o papel das promessas dentro desse modelo. Se antes a religião operava majoritariamente pela contenção, evitando o mal, suportando o sofrimento, esperando por uma recompensa futura, agora ela passa a operar pela expectativa de resultados imediatos. Cura, prosperidade, libertação, vitória. O discurso deixa de ser apenas corretivo e se torna performático. Ele não apenas orienta; ele promete transformar. E toda promessa, quando inserida em um sistema estruturado, gera expectativa, e expectativa gera dependência.
O fiel, nesse cenário, passa a se mover não mais apenas por dever ou por culpa, mas por esperança. E essa esperança é constantemente alimentada por narrativas de sucesso, testemunhos, relatos de transformação que reforçam a ideia de que a solução está sempre ao alcance desde que os procedimentos corretos sejam seguidos. O problema é que esses procedimentos nunca são definitivos. Eles são cíclicos. E cada ciclo reforça a necessidade de um novo ciclo. O diabo continua agindo, a intervenção continua sendo necessária e o sistema continua funcionando.
É nesse ponto que a lógica econômica se torna evidente. Não se trata apenas de dinheiro direto, embora ele esteja presente em muitas dessas práticas. Trata-se de um modelo de sustentação baseado na repetição de demandas. Quanto mais o indivíduo acredita estar sendo atacado, mais ele busca proteção. Quanto mais ele busca proteção, mais ele se envolve com o sistema. E quanto mais envolvido ele está, mais difícil se torna romper com essa lógica, porque a sua própria percepção da realidade já foi moldada por ela.
O mais interessante e, ao mesmo tempo mais inquietante, é que esse modelo não depende de má intenção consciente para funcionar. Ele pode ser reproduzido por pessoas que acreditam sinceramente no que estão fazendo. O ponto central não é a intenção, mas a estrutura. Uma vez que o sistema está montado, ele tende a se perpetuar, porque oferece respostas simples para problemas complexos e cria um ambiente onde essas respostas são constantemente reafirmadas.
O diabo, então, se torna uma peça-chave nesse processo. Ele é o elemento que permite manter o problema sempre ativo. Sem ele, muitas das explicações perdem força, muitas das práticas perdem sentido e muitas das promessas deixam de ter urgência. Ele é, ao mesmo tempo, o inimigo que precisa ser combatido e a justificativa para que o combate nunca termine. E é justamente essa dualidade que o torna tão funcional dentro de um sistema que depende de continuidade.
Quando se observa esse cenário com atenção, fica claro que não estamos lidando apenas com uma crença religiosa isolada, mas com um modelo de funcionamento. Um modelo que organiza a percepção do mundo, define relações, orienta comportamentos e sustenta estruturas inteiras. O diabo, nesse modelo, não é apenas um conceito; ele é um recurso. Um recurso que pode ser ativado, ajustado e direcionado conforme a necessidade.
E é por isso que a pergunta final não é se o diabo existe ou não, mas como ele está sendo utilizado. Porque, independentemente da resposta que cada um dê a essa pergunta, uma coisa é evidente: a forma como essa ideia é mobilizada tem impacto direto na vida das pessoas. Ela pode gerar medo, dependência, isolamento ou submissão. Mas também pode, quando compreendida criticamente, revelar os mecanismos que estavam ocultos.
Desmascarar esses mecanismos não é destruir a fé de ninguém. É retirar dela aquilo que foi construído para controlar, manipular ou explorar. É permitir que a pessoa volte a olhar para a própria experiência sem precisar de um inimigo invisível atacando o tempo todo. E, principalmente, é abrir espaço para uma relação com a realidade que não dependa de um ciclo constante de ameaça e intervenção.
Porque, no fim das contas, o diabo só precisa de uma coisa para continuar funcionando como negócio: que ninguém pare para perguntar de onde ele veio e para que ele está sendo usado.
Respostas de 14
Prof.Carlos, só gratidão por tantos ensinamentos enriquecedor. Deus te abençoe.
Muito interessante um assunto que nos leva pensar como agimos na nossa jornada diária sem perceber que estamos agindo errado
O diabo so precisa de uma coisa para funcionar como negócio. É que ninguém pergunte de onde ele veio e, para que ele está sendo usado.
Estou muito feliz com tantas Sabedorias do nosso Professor Carlos
Facinada em poder está aprendendo cada vez mais e mais. GRATIDÃO🙏
Boa noites, que excelente livro, quanta coisa agente aprende com estes livros, muito aprendizado, obrigado professor todos esses conteúdos,
Estou amando esse Ebook, cada mês um assunto muito interessante, obrigada professor por tantos ensinamentos, estou muito agradecida por ser sua aluna!
Cada mês um assunto muito esclarecedor em nosso E-book….obrigada professor por tantos ensinamentos!!! Cada dia mais agradecida por ser sua aluna!
Maravilha de explicações! Iinfelizmente, as pessoas estão trocando Deus pelo diabo. Algumas seitas não citam Jesus como a única fonte de salvação. O diabo é que tem que ser combatido para que as pessoas se salvem.. E, isto custa caro.
Vejo isso constantemente em algumas pessoas que convivo e frequentam essas igrejas pentecostais. Muito triste a manipulação.Muito esclarecedor o livro
Conteúdo muito bem escrito e esclarecedor. Me fez entender como o medo religioso é construído e usado para fins lucrativos. Obrigada professor. Sou muito grata por ser sua aluna.
Durante a leitura, pude meditar e recordar a vivência em um grupo, tanto familiar, amigos, grupos de oração, em todos existe uma busca constante de alguém ou algo pra levar a culpa, porque não o diabo?
Excelente, se tiver livros físicos, favor divulgar. Parabéns pelo trabalho de evangelização
Eu tenho muito a agradecer ao professor, como explica e nos deixa com mais amor ao nosso Deus Pai 🙏🏼
Conteúdo valioso que pretendo reler para entender melhor! Porém estou surpresa de como as igrejas estão ligadas aos sacerdotes do Templo de Jerusalém! Poder e religião andam juntos inclusive na nossa igreja!
Tudo muito interessante, cada vez mais aprendendo e conhecendo, um ótimo trabalho.
Fiquei bem grarecido sobre assunto